11 de Novembro de 2009

Coisas do Vinho e coisas do vinho: a propósito de Colares

O cromo do Politikos resolveu, uma vez mais, dar uma de enófilo encartado! Como se já não bastasse termos de lhe aturar aqui as opiniões sobre tudo e mais um par de botas, agora temos também de gramar a criatura noutros sítios a botar faladura - que ele julga douta - sobre vinhos e excursões enológicas. E, não contente com isso, ainda assina «à la Krónicas Vinícolas»: Politikos, enófilo mais-que-amador, no caso chateado com Colares... O estiloso!
Haja paciência! Haja paciência!

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2 de Novembro de 2009

Outro Viva a República!

A prioridade de vacinação aos titulares de órgãos de soberania foi estendida aos elementos essenciais dos partidos políticos. A notícia é manchete do Diário de Notícias de hoje. Mais uma vez, a fonte é a DGS (Direcção-Geral da Saúde) da Pólis. Assim, os partidos podem apresentar a lista dos elementos essenciais ao seu funcionamento para que sejam vacinados prioritariamente. Num assomo de decência democrática, o BE e o CDS-PP já disseram que não vão apresentar qualquer lista. Os Verdes estão a pensar. Mas todos os outros vão entregar a lista de Schindler da H1N1. A Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação (CNIPE) manifestou-se contra.
Entretanto, não há, para já, notícia de que o camião que transportou as vacinas ou o armazém onde elas se encontram, de que aqui já demos conta, tenham sido atacados ou saqueados, para sossego dos titulares de órgãos de soberania, dos ex-titulares-de-órgãos-de-soberania-que-foram-presidentes-da-república e dos elementos essenciais dos partidos políticos.
Está já em estudo a extensão deste benefício a todos que coabitem em comunhão de mesa, cama e habitação com os titulares de órgãos de soberania, ex-titulares-de-órgãos-de-soberania-que-foram-presidentes-da-república e elementos essenciais dos partidos políticos. De acordo com vários juristas contactados pelo Pólis&etc., já há quem defenda que a coabitação é extensível às segundas e terceiras habitações, de modo a poder contemplar assim as(os) amantes que os titulares de órgãos de soberania, ex-titulares-de-órgãos de soberania-que-foram-presidentes-da-república e elementos essenciais dos partidos políticos tenham por conta.

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28 de Outubro de 2009

O vintém e o cretino...

Manuel Machado chamou cretino a Jorge Jesus. Objectivamente é um insulto.
Jorge Jesus mostrou 2 dedos quando o Benfica ganhava por 2 e 4 dedos quando ganhava por 4. Objectivamente é apenas uma provocação.
Num primeiro olhar, é mais grave insultar alguém chamando-lhe cretino do que mostrar 2 ou 4 dedos que afinal até só espelham o resultado em campo.
Porém, neste caso, é muito mais grave mostrar os 2 e os 4 dedos do que apodar alguém de cretino:
1.º Porque Jorge Jesus representa o Benfica e o Benfica não é o Nacional; o Benfica é mais forte e o Nacional é mais fraco;
2.º Porque representando o clube mais forte, Jorge Jesus não deve provocar (os 2 dedos) e menos ainda humilhar (os 4 dedos) o clube mais fraco;
3.º Porque Jorge Jesus negou ter provocado com uma desculpa tosca e esfarrapada que falava de uma sinalética em que os 2 dedos simbolizavam os dois avançados e os 4 dedos a linha da defesa.
Ou seja:
Errou porque provocou um clube mais fraco.
Errou porque se vangloriou e humilhou um clube mais fraco.
Errou porque não reconheceu que provocou.
E ainda fez de nós tolos com aquela desculpa.
Manuel Machado também errou, porque o insultou mas sobretudo porque escolheu mal o nome para o insulto...

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18 de Outubro de 2009

Viva a República!

Por estes dias, a República parece que ensandeceu. Segundo noticia o Expresso de hoje, chega para a semana um camião de vacinas para a gripe A. A operação é top-secret. O motorista do camião não sabe que transporta a vacina. O veículo não tem nenhuma indicação de que transporte medicamentos. Chegado cá, vai para um armazém não identificado na Grande Lisboa. Enfim, uma coisa pro, à americana. Não vá o povoléu organizar-se e saquear o camião, nalgum cruzamento da auto-estrada, ou cercar e saquear o armazém das vacinas que se destinam prioritariamente – imagine-se – aos titulares de órgãos de soberania… Diz o Espesso que os primeiros a ser vacinados serão o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República, o Primeiro-Ministro… E nem precisam de mexer uma palha que a Direcção-Geral da Saúde (DGS, curiosa sigla) vai a Belém, à AR e a São Bento tratar-lhes da saúde! Parece que dentro dos grupos de risco, estão também os antigos presidentes da República?!?!?! Certamente na qualidade de ex-titulares de órgãos de soberania. Sampaio corre à frente e já fez mesmo o primeiro pedido… Segundo ele, além de «razões institucionais»?!?!?!?!?!?!?!?! – deve ser por integrar o Conselho de Estado?! – pertence a um grupo de risco por ser cardíaco…
Procurei informar-me, no site da DGS e no Portal da Saúde, sobre quem são os grupos de risco e sobretudo conhecer aqueles a quem vai ser administrada a vacina e com que prioridades, mas não consegui! Só tenho a informação do Espesso. Além dos titulares de órgãos de soberania, todos pelos vistos, que são todos imprescindíveis, como bem se sabe, e ex-titulares, ou pelo menos ex-Presidentes da República, temos em seguida – como é óbvio – os profissionais fundamentais de saúde… Por esta altura já se percebeu pelo negrito que neste caso são só os fundamentais e não todos. Fica por esclarecer se os fundamentais são os que tratam da saúde aos titulares de órgãos de soberania?! Seguem-se aqueles – como é óbvio – que tenham razões de saúde: grávidas com mais de 12 semanas de gestação, obesos, diabéticos, asmáticos, cardíacos…
A ideia de conhecer os grupos de risco e as prioridades de vacinação da DGS era para saber em que lugar estavam, e se estavam, os trabalhadores que asseguram a recolha do lixo… Mas só porque preciso que reciclem o jornal. É que a notícia fede…
Tudo isto parece ter passado incólume. Não há qualquer sobressalto cívico, nenhum sinal de indignação nos media... Ainda está por aqui alguém?

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8 de Outubro de 2009

Fregueses... e munícipes...

Escrevo isto hoje, quinta-feira. Quando, para a minha junta de freguesia, apenas me chegaram dois panfletos de duas forças políticas. Um, o do PS, é medíocre; outro, o da CDU, é satisfatório. Daquela gente, que integra as listas, conheço um elemento de cada uma delas. Da lista do PS, conheço quem me convidou para a integrar e que nem sequer mora na freguesia. Ou numa limítrofe, ou ao menos no concelho de Lisboa! Da lista da CDU, conheço uma colega de profissão que se apresenta como Professora Universitária, quando essa não é a sua profissão principal. Pequenas vaidades, decerto! Professor universitário tem por certo outro sainete! Acresce que quando avalio os folhetos, falo apenas da qualidade das propostas, e não do grafismo ou da correcção linguística! Dos outros partidos, não sei que propostas têm, nem quem são as pessoas. E querem, assim, que eu vá votar?!
Vale a pena, já agora, num tempo em que as autarquias ganharam uma maior dignidade, com candidatos nacionais a concorrerem a muitos municípios. E, num tempo em que ganhou foros de absoluta normalidade o facto de alguns desses candidatos nacionais, já instalados noutra sede qualquer, como por exemplo em Estrasburgo, concorrerem despudoradamente a autarquias onde, se perderem, nunca vão assumir pelouro nenhum. Pedindo o voto e tendo ainda por cima apoios de peso, recordar um episódio passado na última vez que votei em eleições autárquicas, há para aí uns 15 anos...
Nasci em Lisboa e vivi na cidade perto de 30 anos. Acabei a contragosto por ir parar aos arrabaldes onde vegetei durante 10. Sempre havia votado em Lisboa, pelo que estava habituado a que quem concorria, ganhasse ou perdesse, assumia um pelouro, fazendo o seu melhor pela cidade e honrando quem nele depositou confiança. Fui, porém, parar aos subúrbios no exacto momento em que os tais candidatos nacionais começaram a concorrer a câmaras municipais, primeiro para fazer o frete ao partido e depois, quando as câmaras ganharam maior dignidade, por protagonismo.
Colocando-se a questão de votar, numa zona onde não conhecia ninguém, procurei informar-me sobre os programas e os seus intérpretes. Tudo isto na era pré-internet. E lá me decidi pelo candidato do PS, uma aposta forte, já que a criatura era deputado por um dos círculos do estrangeiro. Confiei-lhe o meu voto, ficou em segundo lugar, com quase 30% dos votos. Mas no dia seguinte, marimbou-se para isso e nunca pôs os cotos na câmara municipal… Passei, a partir daí, a votar militantemente em branco, evoluindo depois, mais recentemente e após bastante reflexão, para a abstenção.
Por tudo isto, só se fosse totalmente desprovido de qualquer bom senso cívico é que iria votar nestas eleições... pelo menos para a minha junta de freguesia…

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27 de Setembro de 2009

O «sistema da cruz» e a margarina...

Só eu sei porque fico em casa…
O Expresso - doravante Espesso - encabeça o editorial desta semana com a tronitruante frase:
«Votar é o maior dever de um cidadão em relação ao seu país. Não o cumprir, embora seja legítimo, é desprezar o nosso futuro e a nossa coesão enquanto povo.»
É o tipo de frase que me irrita. Por ser grosseiramente simplista.
Primeiro, porque acha que o não votar é uma demissão, quando pode ser uma tomada de posição. Talvez se o Espesso fizesse o trabalho de casa e procurasse saber porque não vota quem se abstém não fosse um mau começo.
E em segundo porque a frase é hiperbólica. Podia encontrar um bom punhado de coisas mais importantes e que fazem um bom cidadão do que pôr uma cruz num papel de 4 em 4 anos. O maior dever de um cidadão pode muito bem ser não infringir as leis, pagar impostos, apoiar e ajudar os seus concidadãos, empenhar-se em causas ou associações cívicas… São coisas dessas, mais do que votar, que asseguram o nosso futuro e asseguram a nossa coesão como povo, para usar o paleio do Espesso.
Sobre as razões porque não voto – em legislativas e autárquicas, já agora diga-se; convém não pôr tudo no mesmo saco: isso do votar em abstracto é mais outra ideia simplória que a frase do Espesso contém – já aqui as escrevi.
E se quem não vota se abstém de frases grandiloquentes sobre a importância do não voto, é suposto que quem vota meta a viola no saco. Aliás, quem vota apenas critica quem não vota nos dias que antecedem o voto. Depois disso e até novo voto, manifesta um olímpico desprezo por quem não vota, não procurando sequer saber porque é que isso acontece.
Os que estão satisfeitos com o sistema da cruz, que vão lá e votem. Os que se sentem representados pelos seus representantes - isto se souberem quem eles são, para além do primeiro e do segundo da lista – que vão lá e votem. Os que acham que é civicamente relevante pôr uma cruz à frente de uma sigla e de um nome de um partido – muitas vezes sem conhecer o programa e quase sempre sem conhecer as medidas concretas que irão ser tomadas nas diversas áreas da governação – que vão lá e votem. Os que acham que é civicamente relevante pôr a cruz numa sigla e num nome – sem conhecer os ministros que irão interpretar as políticas e executar as medidas – que vão lá e votem. Os que acham que é civicamente relevante pôr a tal cruz sem ter nenhuma hipótese de monitorizar e de se pronunciar sobre a execução dos programas e das medidas, que vão lá e votem. Eu não vou. Porque sou mais exigente do que isso com o sistema… É que até quando compro um pacote de uma nova margarina, muitas vezes me perguntam, semanas depois, se estou contente com o produto, com o sabor, com o aroma, com a consistência, com a embalagem, com o preço, com a qualidade do atendimento de quem ma vendeu e o que for… E o meu voto vale mais do que um pacote de margarina e não estou disposto a entregá-lo por menos?!

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19 de Setembro de 2009

Imposto de Saúde

Só muito rara e pontualmente - para não dizer mesmo nunca - me queixo de que pago muitos impostos. E pago directamente, só através do IRS, 36,5% do que ganho. Não me queixo porque globalmente não sei dizer se pago muito ou pouco, atento o que recebo. Já aqui o escrevi.
Um dos bens que recebo, e inestimável, é a saúde. Felizmente vivo num país em que se um sem-abrigo e um empresário de sucesso – deixemos de lado os termos pobre e rico que ultimamente perderam verosimilhança: este último, até, democratizou-se a níveis impensáveis por obra e graça de um Governo PS!... – tiverem um acidente de viação são levados para o mesmo hospital, na mesma ambulância, são atendidos pelo mesmo médico e tratados de igual forma... E isto é um bem sem(com) preço que deve exigir de nós os maiores cuidados…
Todos sabemos também que os custos com a saúde aumentaram enormemente. Ainda me lembro do tempo em que os exames complementares de diagnóstico eram pouco mais que análises ao sangue e radiografias… Hoje, há ecografias, TAC, tomografias de positrões e o que for…
Para combater o aumento das despesas, os Governos introduziram umas taxas moderadoras ridículas, sob o pretexto moderar o acesso às urgências. É uma desculpa tosca: se existissem serviços médicos de atendimento permanentes e eficazes, e médicos de família com horários compatíveis com as vidas profissionais, ninguém recorria às urgências dos hospitais. Este último Governo fez mais. Estendeu-as aos internamentos e às cirurgias, fazendo de nós tolos: moderar internamentos e operações?!?!?
Seria melhor encarar o problema de frente, falar verdade e dizer ao cidadão que se quer o sistema tal como está, e desejavelmente melhor, tem de pagar mais. Simplesmente isso. Através de um imposto de saúde, pago com base nos rendimentos - todos (de capitais, também) e não só do trabalho…
Esta necessidade de pagarmos mais pela saúde explica-se mais facilmente através de exemplos reais. Uma colega e amiga, cujo marido irá nos próximos meses sofrer um transplante hepático, em conversa com um dos médicos, questionou-o sobre os custos de um transplante, ao que este lhe disse que cada transplante de fígado, com todo o processo a montante e a jusante, custa, dependendo das complicações, entre 300 e 500 mil euros…
É também para termos a garantia de poder continuar a beneficiar disto que digo o que digo…

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2 de Setembro de 2009

Uma questão de afectos

O voto em política passa – em meu entender – muito pelo afecto e pelas afinidades profundas. Duvido que muitos leiam os programas dos partidos ou que conheçam os deputados pelo seu círculo. Muitos – excluo naturalmente os oportunistas – acabam por votar por mero clubismo – alguns são de um partido como são de um clube de futebol e alardeiam mesmo essa fidelidade como um sinal distintivo de que se orgulham; muitos votam nos líderes – que podem ser mais ou menos inspiradores e assim permitirem uma maior identificação com eles; muitos ainda votam numa ideia mítica que têm dos partidos e dos seus posicionamentos político-ideológicos. São meras ressonâncias subjectivas. Uma análise objectiva não lhe resiste. Porém, é quase sempre odioso mostrar a alguém aquilo que verdadeiramente é. É o que acontece com os votantes do PS.
O PS foi um partido de esquerda. Hoje, não é um partido de esquerda. Qualquer análise que ponha de lado o afecto e as afinidades profundas e analise esta governação à luz da razão o demonstra.
Creio ser pacífico assentar em três pontos:
  1. Nenhum Governo depois do 25 de Abril governou mais à direita em matéria económica e social;
  2. O que distingue o PS do PSD, em matéria de posicionamento esquerda/direita, são meras questões de costumes, designadamente, no que respeita à família;
  3. Nem na atitude pessoal dos membros do Governo, e genericamente do PS, é sequer possível observar hoje a distinção esquerda/direita.
O PS é hoje um partido de direita, quer se queira, quer não, por muito que isso custe a quem vote no PS.

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27 de Agosto de 2009

Julgamentos éticos ou cívicos

O que vou escrever é polémico. É mesmo uma heresia cívica.
Entre nós tem ganho raízes a ideia politicamente correcta e absolutamente indiscutível de que os julgamentos não se devem fazer na rua, na praça pública, mas sim nos tribunais. Vimos isso escrito e dito até à exaustão. Não há nenhuma dúvida de que isso é – e bem – um traço civilizacional característico dos Estados de Direito e da Democracia. É o que nos protege da prepotência, da discricionariedade, do arbítrio.
O problema é que o encaramos, ou assim nos vendem acriticamente a ideia, como uma espécie de dogma absoluto. Numa época que nada é absoluto e tudo se discute, até mesmo, em certas circunstâncias, a vida humana.
Ao mesmo tempo que isto acontece, queixamo-nos cada vez mais da impunidade generalizada. E não pensamos que bastas vezes os tribunais não condenam, não porque alguém seja inocente, mas apenas porque não ficou provado com prova blindada, e muitas vezes até, porque, apesar de provado, a prova não pôde ser aceite por um qualquer formalismo do sistema.
Esta conversa da rua e da praça pública é em si mesmo hoje um anacronismo inverosímil. Desde logo, porque hoje em dia não se lincha, nem se apedreja ninguém na praça pública. Além de que a praça pública, seja lá o que isso for nos dias de hoje, também não mete ninguém na cadeia.
Por detrás disto, está uma construção utópica: um Estado de Direito ideal e omnipotente, único agente da realização de Justiça que absolve ou aplica penas, geralmente de privação de liberdade. O que remonta a um tempo em que o Povo ignaro aceitava e depois delegava nos tribunais a capacidade de fazer Justiça. Entre nós, isso está ainda mais presente, já que nunca ganhou raízes, provavelmente por razões de base cultural, o sistema dos tribunais de júri, em que verdadeiramente o Povo é chamado a decidir. Nesta matéria, o Povo sempre foi posto de parte e sempre se colocou à parte, até porque percebe mal o sistema e as suas regras. Importa, porém, não esquecer que a capacidade de julgar é nossa enquanto colectivo, é administrada em nosso nome e nós delegámo-la.
Entretanto, apareceram media capazes de em tempo útil investigar e apresentar factos e opiniões públicas capazes de os avaliar e discernir e separar o trigo do joio. Ao mesmo tempo, a Justiça tem-se vindo a deteriorar, enredando-se em garantismos, formalismos e longas tramitações processuais. Serva da aplicação da Lei mas não da realização da Justiça.
E se o Estado de Direito, mesmo com todas as suas falhas, é um bem que nos defende da discricionariedade e do arbítrio, também permite e cada vez mais a impunidade. No que respeita aos novos crimes, ela então é quase total.

Há pois que dentro do sistema – incluindo-se aqui o legislador e o aplicador – fazer um balanço entre direitos e garantias e impunidade, fazendo pender em certos tipos de crime mais a balança para um dos lados, consoante o grau de impunidade publicamente percepcionado. E fora do sistema, em prol dos mesmos valores civilizacionais que o Estado de Direito procura defender, cabe-nos ir incorporando sem dogmas bacocos a capacidade de publicamente julgarmos, juntando aos julgamentos dos tribunais, que podem conduzir a penas, os julgamentos de cidadania ou éticos, que aplicam sobre os mesmos factos a pena da censura social e cívica. E isto é válido quer para os políticos, por exemplo na constituição de listas de deputados e nas escolhas de autarcas, quer para os cidadãos nas escolhas para as organizações da sociedade civil. É que essa também é uma forma de credibilizar a democracia e o Estado de Direito. Tanto mais que o Povo ignaro de outrora já não existe…

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17 de Agosto de 2009

Crónica hospitalar e de costumes VI

Há que pôr termo à saga do estúpido acidente doméstico no qual parti um braço que mais parece uma telenovela mexicana tantos os episódios e micro-episódios aqui relatados. Mas ainda podia durar que há sempre muito para dizer acerca destas coisas. A última referência é para elogiar o sistema informático do Hospital de S. José. Já o critiquei por não ter instalada a funcionalidade que permite emitir atestados médicos, agora vou elogiá-lo por ser económico e amigo do ambiente. Fiquei espantado quando, na segunda ida à urgência, em lugar do velhinho raio X, me entregaram um CD-R com o dito. O qual pude ver em casa e tudo, já que vinha com um programinha de visualização. Um must... É claro que depois, na excelência da medicina privada, o médico não tinha PC no consultório. Mas como é um homem desenrascado, foi até ao balcão de atendimento, desalojou provisoriamente a funcionária e viu aquilo.
That's all folks! Uf...

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2 de Agosto de 2009

Férias

Com a carneirada de Agosto, o Pólis&etc. desceu a sul, a banhos... Obrigando-se a esquecer a net... e esperando que, nesta matéria, não haja tentações... As férias também são isto...
Boas férias a todos, se for o caso... Os que ficam, façam o favor de aguentar a Pólis...

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1 de Agosto de 2009

Crónica hospitalar e de costumes V

A saga do estúpido acidente doméstico no qual parti um braço teve vários micro-episódios. Após o relatado atrás (II), em que o Técnico de Medicina não quis fazer o Raio X de confirmação, não fiquei obviamente descansado. Há várias maneiras de matar o bicho e outras tantas para cozinhar bacalhau, como se sabe. Pelo que, além de não ter tomado o sedativo que a criatura me prescreveu, resolvi fazer o check up da coisa, recorrendo à medicina privada. Consegui marcar para o meu ortopedista para daí a dois dias. E ala para lá. Acontece que o mundo é realmente pequeno e Portugal uma das suas aldeias mais pequenas e o meu ortopedista é médico no Hospital de S. Lázaro que é uma extensão do de S. José, além de também fazer urgências naquele. Conhecia, pois, o esquálido, o pesadão de bigode e o Técnico, pelo que tive oportunidade de checkar também as minhas impressões pessoais sobre aquele trio. Os médicos, como se sabe, comportam-se como uma matilha quando um deles é atacado publicamente. Mas em privado adoram comentar-se e desdizer os diagnósticos uns dos outros. Deus só há um, aquele que temos ali na nossa frente. O panteão raramente comporta mais… Achou que eu estava bem entregue ao esquálido que qualificou de jovem promissor e paciente para com os doentes. E achou que o Técnico era realmente – cito de memória – «um colega que lá temos que mal o doente se senta, já se está a levantar. É assim!».
O meu ortopedista oficial é um indivíduo de meia-idade, já grisalho, entroncado e não muito alto, no qual ainda se percebem as raízes físicas do típico homem português de antanho. Gosta de fazer de Deus no quotidiano, ou seja, gosta do que faz e fá-lo bem. É um indivíduo horizontal no trato com os doentes, no qual deposito algum crédito de confiança mercê da experiência que lhe reconheço e de diagnósticos antigos nos quais mostrou sempre proficiência. É um homem directo, objectivo, informal no trato e com bastante capacidade de leitura das situações e das pessoas que tem pela frente. Em boa hora lá fui. Primeiro porque nem foi preciso dizer nada, já que ele me disse: «Vou querer que faça um segundo raio X para ver se isso está tudo alinhado. Essa é a minha maior preocupação!». Gosto sempre quando eles usam os possessivos (a minha preocupação), tomando para eles o problema que não é seu. Sentimo-nos logo entregues e delegamos a coisa. A consulta foi a uma sexta e ele disse-me: «Faço banco no domingo em S. José. Vá lá ter comigo, que fazemos isso». Como sou dos que criticam a norma mas cumpro-a a maior parte das vezes, ainda lhe disse: «Mas não será uma urgência!?». E ele: «Não se preocupe. Vai lá, diz que lhe dói o braço. Eles vêem o gesso e mandam-no logo para a ortopedia. E lá, pede para falar comigo». Dito e feito. Fiz o raio X de controle e estava tudo ok. E, mais-valia fundamental, as dicas que ele me deu. Disse-me que era essencial que mexesse o mais que pudesse o braço imobilizado para exercitar a articulação do ombro, que era, segundo ele, a que me provocava as dores musculares que me levaram no segundo dia à urgência: «O Sr. em casa retira o apoio de braço e mexa com todo o à-vontade o braço: a zona fracturada está imobilizada, pelo que não tem com que se preocupar». Resultado: nunca mais tive dores musculares.
To be continued

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31 de Julho de 2009

Crónica hospitalar e de costumes IV

A saga do estúpido acidente doméstico no qual parti um braço teve vários micro-episódios. No final da primeira consulta na urgência, e estando naturalmente impossibilitado para trabalhar, pedi o competente atestado ao esquálido que me atendeu. Pensando que a coisa estava em Simplex, já estava a ver sair da impressora o papel preenchido, prontinho para ser assinado. Puro engano! Parece que o programa informático do Hospital de S. José tem essa funcionalidade prevista há dois anos… mas ainda não foi implementada. O esquálido diligentemente mostrou-me mesmo o botão informático da dita. Lá tive, pois, no dia seguinte, cheio de dores e sem ter pregado olho, de me arrastar até ao médico de família, que aproveitei para conhecer, pedir por amor de Deus ao dito que me atendesse e me desse o tal papel.
A situação, como se vê, é cretina e caricata, não se percebendo sequer o porquê de não estar resolvida. Será que o truculento Correia de Campos ou Ana Jorge, com aquele arzinho entre o snobe e o negligé, tiveram/têm conhecimento disto?!
To be continued

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28 de Julho de 2009

Crónica hospitalar e de costumes III

O episódio das Crónicas Hospitalares e de Costumes relatado atrás não acabou ali. Aguardei no corredor, já com os doentes a amontoarem-se e a aparecerem as primeiras queixas pelo tempo de espera, quando chega a enfermeira. Uma mulher alta, de cabelos negros ou castanhos-escuros, com um rosto ainda bonito mas em que o corpo acusava já o passar dos anos. Foi próxima e simpática mas sem aquele paternalismo ou infantilização, muito característicos do pessoal hospitalar que não os médicos. Ao ler a receita do Técnico, constatei que ambos os fármacos eram injectáveis, acabando um deles em «an» ou «am», o que logo me soou a sedativo. Perguntei à enfermeira de rosto bonito, o que era aquilo, ao que ela me disse que um era um relaxante muscular e o outro era realmente um sedativo. Disse-lhe peremptoriamente e de modo a não permitir qualquer réplica: «levo o primeiro e não levo o segundo». Ela nem tugiu, nem mugiu. Ora, o Técnico deu-me o primeiro para as dores e o segundo deve ter sido por eu lhe ter dito que não tinha dormido nada na noite anterior, já que não estava particularmente nervoso ou ansioso. Enervado estava sim, no dia anterior, quando fiz a fractura. A facilidade com que os médicos prescrevem este tipo de medicamentos é coisa que mereceria reflexão...
Seguiu-se o aliviar da tala. Tive de ser eu a dar-lhe uma ajuda na decifração da letra encadeada do Técnico e, antevendo dificuldades, ela disse-me: «ai, ai, como é que eu lhe vou fazer isso?» Devo dizer que este episódio foi o mais doloroso de todo este processo, já que tiveram de me levantar o braço uns 10º ou 20º do ângulo recto em que estava. Já só me vi rodeado de três enfermeiros que me diziam que tinha os músculos completamente tensos e eu só dizia para deixarem aquilo tal como estava. Arrependi-me deveras de me ter queixado, mas lá me conseguiram colocar umas mechas suplementares de algodão que me aliviaram umas horas mas à noite estava quase na mesma. Lá pus eu, adicionalmente, com a ajuda de espátulas de madeira, colheres de pau e o que fosse desde algodão a rodelas de retirar maquilhagem. Valeu tudo. Mas o alívio foi curto. Em pouco tempo, aquilo ganhava cama e continuava a magoar-me de sobremaneira. Tive, então de agir por conta própria e fracturei deliberadamente o gesso naquela parte. E em boa hora o fiz, pois só assim consegui alívio daquele garrote. Quando, semanas após, no final do processo de consolidação, retirei o gesso, tinha uma enorme crosta de sangue e um valente hematoma. A enfermeira que o removeu disse-me mesmo: «Como o senhor tem isto! Não lhe doía?! E eu: «Claro que sim, daí ter fracturado o gesso nessa parte». E ela: «Foi o que lhe valeu, já que isso podia ter chegado ao osso». Pois!
É inaceitável que o Técnico de Medicina prescreva medicamentos sem explicar aos doentes o que são e para que servem. Já que o Técnico, embora pelos meus critérios não seja médico, também não é veterinário... Tal como é inaceitável que o Técnico tenha desvalorizado as queixas de dor no pulso, já que dali poderiam advir males maiores não fora aquele meu expediente...
To be continued

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27 de Julho de 2009

Crónica hospitalar e de costumes II

Mais um episódio do estúpido acidente doméstico no qual parti um braço. Como já se disse fui engessado: uma tala em meia-cana coberta por uma ligadura e assim andei 21 – para mim – longos dias. Como tenho os pulsos finos e um bocado ossudos, a tala ficou a magoar-me, o que só dei conta algumas horas depois. Em conversa com familiares, amigos e conhecidos, cada um me foi alertando para um ou outro aspecto da coisa. Já se sabe que de médico e de louco todos temos um pouco... E ainda bem, pelo menos em relação à primeira parte da premissa. Em concreto, a minha santa mãe alertou-me para o facto de eu não ter feito uma radiografia após a colocação do gesso, asseverando-me que o devia ter feito para ver se o braço tinha ficado na posição certa. Dado que se consolidasse mal, o caso seria depois muito mais complicado. Andei na net, à esquerda, a averiguar se aquele era um procedimento médico obrigatório mas os resultados não foram conclusivos. Assim sendo, com o incómodo no pulso e com a história do raio X pós-gesso a bailar-me no espírito, no dia seguinte voltei à urgência.
Mesmos passos e eis-me de novo na ortopedia. Desta vez, porém, tive azar. Não dei nem com o esquálido, nem com o pesadão de bigode. E fui atendido por um outro tipo. Este, porém, não era médico. Seria seguramente licenciado em Medicina. Médico não era! Já que para isso é necessária a vertente humana, coisa que de todo lhe escapava. Chamemos-lhe, pois, Técnico de Medicina, que é o que lhe assenta melhor. Tenho a ideia de ser um tipo de meia-idade, cabelo curto já grisalho, rosto redondo, olhos pequenos, de gestos despachados e voz igualmente despachada. Creio que nem sequer me fitou nos olhos e mal ouviu o que lhe disse. Uma máquina afinada de passar receitas. Após me ter queixado de dores no braço e no pulso e de ter aventado timidamente a hipótese de um segundo raio X, o Técnico prescreveu-me dois medicamentos, não me explicando sequer o que eram e rejeitou liminarmente e com algum desdém o segundo raio X. Sobre a dor no pulso, nada disse. Tive mesmo de o alertar novamente para isso, tendo ele então escrito a despachar numa letra cursiva e encadeada: «aliviar tala gessada». Lá fui para o corredor, aguardando ser atendido pela enfermeira. Como a sala era em frente e eu estive à espera bem perto de meia hora, pude ver que o Técnico – seguramente uma referência para os gestores do Hospital de S. José mas só para esses – aviou ao mesmo ritmo mais uns quantos doentes. Velhos e novos, em ambulatório ou internados, pelo seu próprio pé, em cadeiras de rodas ou em maca.

O homem é mesmo uma máquina.
To be continued

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