30 de janeiro de 2011

Direita, volver!

As presidenciais trouxeram uma vez mais para a ribalta das televisões o habitual exército de analistas, comentadores políticos, politólogos e afins. Sempre e sempre, porém, com os mesmos quadros mentais de análise. Era esquerda para ali, direita para acolá. E pior que isso, alternando de quadros, na mesma noite, ao sabor da conjuntura do momento, alinhando partidos à esquerda e à direita, conforme as conveniências da análise.
Era exigível um pouco mais e sobretudo saber-se do que se fala quando se alinham os partidos à esquerda ou à direita! Se bem que o quadro político português tem algumas originalidades e permite, de facto, alguma confusão, chegando-se a geometrias variáveis consoante se analisem os partidos políticos à luz de:
  1. Designação;
  2. Auto-posicionamento ideológico;
  3. Prática política.
Quem os analisar à luz das designações - Partido Socialista (PS), Partido Social-Democrata (PSD), Bloco de Esquerda (BE), Partido Comunista Português (PCP) e Centro Democrático e Social/Partido Popular (CDS-PP) - chega à conclusão de que não existem partidos de direita. Mas apenas, 4 partidos de esquerda e 1 do centro.
Quem, por sua vez, os analisar à luz do auto-posicionamento ideológico, chega à conclusão de que existem 3 partidos de esquerda - PS, BE e PCP - e 2 de direita - PSD e CDS-PP - sendo o centro omisso. É aliás desse modo que se posicionam simbolicamente no hemiciclo português e a nível europeu.
Quem, porém, os analisar à luz da prática desses mesmos partidos, chega à conclusão de que existem 3 partidos de direita - PS, PSD e CDS-PP - e 2 de esquerda - BE e PCP. Como, aliás, facilmente se constata em matéria de alianças em que já todos estiveram coligados entre si.
Ora, do baptismo à realidade vai, como se vê, uma grande distância, no PS, no PSD e no CDS-PP. O caso mais flagrante é, porém, o do PS que tem feito um percurso consistente da esquerda para a direita, atingindo o seu apogeu com os governos de Sócrates. Até António Guterres, as políticas sociais, as posições em relação aos costumes e mesmo a atitude pessoal dos seus membros ainda permitia encontrar diferenças entre PS e PSD, por exemplo. Hoje, porém, nas políticas sociais e na atitude pessoal dos seus membros, o PS até ultrapassou o PSD pela direita, ficando apenas como resquício do que foi outrora um partido de esquerda as posições em matéria de costumes! Desafio alguém a encontrar nestes últimos anos, excluindo o casamento entre pessoas do mesmo sexo, uma única medida que possa posicionar o PS naquilo a que se convencionou chamar de esquerda...

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8 de outubro de 2009

Fregueses... e munícipes...

Escrevo isto hoje, quinta-feira. Quando, para a minha junta de freguesia, apenas me chegaram dois panfletos de duas forças políticas. Um, o do PS, é medíocre; outro, o da CDU, é satisfatório. Daquela gente, que integra as listas, conheço um elemento de cada uma delas. Da lista do PS, conheço quem me convidou para a integrar e que nem sequer mora na freguesia. Ou numa limítrofe, ou ao menos no concelho de Lisboa! Da lista da CDU, conheço uma colega de profissão que se apresenta como Professora Universitária, quando essa não é a sua profissão principal. Pequenas vaidades, decerto! Professor universitário tem por certo outro sainete! Acresce que quando avalio os folhetos, falo apenas da qualidade das propostas, e não do grafismo ou da correcção linguística! Dos outros partidos, não sei que propostas têm, nem quem são as pessoas. E querem, assim, que eu vá votar?!
Vale a pena, já agora, num tempo em que as autarquias ganharam uma maior dignidade, com candidatos nacionais a concorrerem a muitos municípios. E, num tempo em que ganhou foros de absoluta normalidade o facto de alguns desses candidatos nacionais, já instalados noutra sede qualquer, como por exemplo em Estrasburgo, concorrerem despudoradamente a autarquias onde, se perderem, nunca vão assumir pelouro nenhum. Pedindo o voto e tendo ainda por cima apoios de peso, recordar um episódio passado na última vez que votei em eleições autárquicas, há para aí uns 15 anos...
Nasci em Lisboa e vivi na cidade perto de 30 anos. Acabei a contragosto por ir parar aos arrabaldes onde vegetei durante 10. Sempre havia votado em Lisboa, pelo que estava habituado a que quem concorria, ganhasse ou perdesse, assumia um pelouro, fazendo o seu melhor pela cidade e honrando quem nele depositou confiança. Fui, porém, parar aos subúrbios no exacto momento em que os tais candidatos nacionais começaram a concorrer a câmaras municipais, primeiro para fazer o frete ao partido e depois, quando as câmaras ganharam maior dignidade, por protagonismo.
Colocando-se a questão de votar, numa zona onde não conhecia ninguém, procurei informar-me sobre os programas e os seus intérpretes. Tudo isto na era pré-internet. E lá me decidi pelo candidato do PS, uma aposta forte, já que a criatura era deputado por um dos círculos do estrangeiro. Confiei-lhe o meu voto, ficou em segundo lugar, com quase 30% dos votos. Mas no dia seguinte, marimbou-se para isso e nunca pôs os cotos na câmara municipal… Passei, a partir daí, a votar militantemente em branco, evoluindo depois, mais recentemente e após bastante reflexão, para a abstenção.
Por tudo isto, só se fosse totalmente desprovido de qualquer bom senso cívico é que iria votar nestas eleições... pelo menos para a minha junta de freguesia…

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27 de setembro de 2009

O «sistema da cruz» e a margarina...

Só eu sei porque fico em casa…
O Expresso - doravante Espesso - encabeça o editorial desta semana com a tronitruante frase:
«Votar é o maior dever de um cidadão em relação ao seu país. Não o cumprir, embora seja legítimo, é desprezar o nosso futuro e a nossa coesão enquanto povo.»
É o tipo de frase que me irrita. Por ser grosseiramente simplista.
Primeiro, porque acha que o não votar é uma demissão, quando pode ser uma tomada de posição. Talvez se o Espesso fizesse o trabalho de casa e procurasse saber porque não vota quem se abstém não fosse um mau começo.
E em segundo porque a frase é hiperbólica. Podia encontrar um bom punhado de coisas mais importantes e que fazem um bom cidadão do que pôr uma cruz num papel de 4 em 4 anos. O maior dever de um cidadão pode muito bem ser não infringir as leis, pagar impostos, apoiar e ajudar os seus concidadãos, empenhar-se em causas ou associações cívicas… São coisas dessas, mais do que votar, que asseguram o nosso futuro e asseguram a nossa coesão como povo, para usar o paleio do Espesso.
Sobre as razões porque não voto – em legislativas e autárquicas, já agora diga-se; convém não pôr tudo no mesmo saco: isso do votar em abstracto é mais outra ideia simplória que a frase do Espesso contém – já aqui as escrevi.
E se quem não vota se abstém de frases grandiloquentes sobre a importância do não voto, é suposto que quem vota meta a viola no saco. Aliás, quem vota apenas critica quem não vota nos dias que antecedem o voto. Depois disso e até novo voto, manifesta um olímpico desprezo por quem não vota, não procurando sequer saber porque é que isso acontece.
Os que estão satisfeitos com o sistema da cruz, que vão lá e votem. Os que se sentem representados pelos seus representantes - isto se souberem quem eles são, para além do primeiro e do segundo da lista – que vão lá e votem. Os que acham que é civicamente relevante pôr uma cruz à frente de uma sigla e de um nome de um partido – muitas vezes sem conhecer o programa e quase sempre sem conhecer as medidas concretas que irão ser tomadas nas diversas áreas da governação – que vão lá e votem. Os que acham que é civicamente relevante pôr a cruz numa sigla e num nome – sem conhecer os ministros que irão interpretar as políticas e executar as medidas – que vão lá e votem. Os que acham que é civicamente relevante pôr a tal cruz sem ter nenhuma hipótese de monitorizar e de se pronunciar sobre a execução dos programas e das medidas, que vão lá e votem. Eu não vou. Porque sou mais exigente do que isso com o sistema… É que até quando compro um pacote de uma nova margarina, muitas vezes me perguntam, semanas depois, se estou contente com o produto, com o sabor, com o aroma, com a consistência, com a embalagem, com o preço, com a qualidade do atendimento de quem ma vendeu e o que for… E o meu voto vale mais do que um pacote de margarina e não estou disposto a entregá-lo por menos?!

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2 de setembro de 2009

Uma questão de afectos

O voto em política passa – em meu entender – muito pelo afecto e pelas afinidades profundas. Duvido que muitos leiam os programas dos partidos ou que conheçam os deputados pelo seu círculo. Muitos – excluo naturalmente os oportunistas – acabam por votar por mero clubismo – alguns são de um partido como são de um clube de futebol e alardeiam mesmo essa fidelidade como um sinal distintivo de que se orgulham; muitos votam nos líderes – que podem ser mais ou menos inspiradores e assim permitirem uma maior identificação com eles; muitos ainda votam numa ideia mítica que têm dos partidos e dos seus posicionamentos político-ideológicos. São meras ressonâncias subjectivas. Uma análise objectiva não lhe resiste. Porém, é quase sempre odioso mostrar a alguém aquilo que verdadeiramente é. É o que acontece com os votantes do PS.
O PS foi um partido de esquerda. Hoje, não é um partido de esquerda. Qualquer análise que ponha de lado o afecto e as afinidades profundas e analise esta governação à luz da razão o demonstra.
Creio ser pacífico assentar em três pontos:
  1. Nenhum Governo depois do 25 de Abril governou mais à direita em matéria económica e social;
  2. O que distingue o PS do PSD, em matéria de posicionamento esquerda/direita, são meras questões de costumes, designadamente, no que respeita à família;
  3. Nem na atitude pessoal dos membros do Governo, e genericamente do PS, é sequer possível observar hoje a distinção esquerda/direita.
O PS é hoje um partido de direita, quer se queira, quer não, por muito que isso custe a quem vote no PS.

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6 de junho de 2009

Incumprimentos...

Em conversa com um amigo, fui-lhe ouvindo os desabafos sobre o não cumprimento, por parte de uma grande empresa portuguesa, de parte do contrato de prestação de serviços que ambos haviam assinado. Esse meu amigo equacionava mesmo a possibilidade de recurso contencioso e de corte de relações com um dos directores da mesma.
Por alguns momentos, a conversa derivou para as eleições europeias, tendo-lhe eu referido que não iria votar. Recebo de volta uma resposta indignada, qualquer coisa como: Que vergonha, parece impossível não ires votar! Respondi, em jeito de contra-ataque, que quem votava nestas europeias é que não tinha vergonha nenhuma e nem sequer se dava ao respeito! Notei-lhe alguma estupefacção pelo inesperado da resposta e levei com o habitual paleio do dever cívico, característico de quem beneficiou tarde desse direito e já o acha em si mesmo um bem absoluto, não achando que esse período já passou e que hoje se deve ser mais exigente com a democracia e com os seus agentes. Retorqui que os políticos dos partidos do chamado arco do poder, e muito especialmente o PS, sempre desconsideraram o Povo nesta matéria. Porque nunca referendaram Mastrich, Roma ou mais recentemente Lisboa. E, neste último, o referendo foi-nos mesmo prometido... pelo PS… Para rematar, pedi-lhe uma ideia dos candidatos sobre a Europa, não foi sequer uma ideia de Europa, mas apenas uma medida a defender na União e as principais diferenças entre eles, mas não obtive mais do que um discurso pouco articulado e vaguezas...
Não deixa igualmente de ser curioso como conseguimos ter dois pesos e duas medidas radicalmente diferentes para analisar incumprimentos, sentindo muito as coisas que se passam directamente connosco e pouco a coisa pública. E quando o sentimos ainda é com os olhos de uma gramática apegada a um pós-ditadura sobre a qual já passaram 35 anos...
Já saí do armário e não me disponho a receber lições de cidadania básica de quem apenas põe uma cruz de quatro em quatro anos... Além disso, convenhamos, dava-me menos trabalho pôr a tal cruz do que por exemplo alimentar este blogue...

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5 de junho de 2009

A resposta taco-a-taco que não chegou a vir

Freitas do Amaral (FA) num notável artigo na Visão de há duas semanas fez um repto a Louçã, sob a forma de perguntas. O artigo é de uma clareza meridiana, com aquele raciocínio simples, articulado e estruturado que caracteriza FA. Fiquei curiosíssimo em conhecer a resposta de Louçã. Ela veio na semana seguinte. Infelizmente, a resposta de Louçã é generalista, embrulhada e abstracta. Louçã caiu na armadilha montada por Freitas e não a conseguiu desmontar. A forma como FA o encostou à parede exigia dele uma resposta clara e directa, ponto a ponto, taco-a-taco, pergunta a pergunta. E não foi isso que aconteceu.
Para além das questões de forma, o problema maior são as questões de substância.
O BE já fez um grande trajecto, ao arrumar a tralha trotskista e outras no baú das antiguidades e ao fazer emergir uma geração mais nova, mais urbana, mais cosmopolita, menos trauliteira, com densidade política e propostas concretas. Falta-lhe, porém, aquele bocadinho assim para se tornar um partido positivo que contribua para a governação do país. Talvez na próxima geração! Porém, com os descontentes do PS e outros que ideologicamente não querem encostar ao centro ou guinar à direita onde apenas encontram mais do mesmo, o BE pode ver-se de um momento para o outro com um número de votos que o faça ter de crescer mais depressa... e não só nos votos...

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10 de maio de 2009

Onde mais lhes dói?

O sistema democrático representativo em Portugal sendo um bem precioso, desde logo porque até me permite abster-me sem qualquer penalização, é, apesar disso, não só imperfeito, mas rudimentar e até mesmo canhestro.
Abstenho-me nas eleições legislativas, europeias e autárquicas. Voto na eleição unipessoal para a Presidência da República (PR) e nos referendos. Na eleição para a PR, voto com base na personalidade e na experiência do candidato, atenta a função. Nos referendos, voto para me pronunciar sobre uma questão concreta. Nas legislativas, europeias e autárquicas não voto porque o modelo de representação não me satisfaz. Os agentes políticos sabem-no mas não os vejo preocupados com isso.
O PR, no discurso de comemoração do 25 de Abril, apelou ao voto por receio de perca de legitimidade. No dia em que a abstenção se aproximar dos 50% - ou passar a barreira dos psicológica dos 40% soa o sinal de alarme e começam-se a tomar medidas – pois coloca-se em causa a legitimidade dos governos e das suas decisões, já que podem passar a representar menos de metade dos cidadãos. E isso é intolerável, porque transforma o país numa espécie de colectividade de bairro em que os órgãos sociais são eleitos uma hora depois da assembleia geral começar por aqueles que estiverem na sala, no caso do País, por quem foi votar.
As nossas elites também não exigem a reforma do sistema eleitoral, uma simples evoluçãozita do sistema representativo para formas mais participativas. Queixam-se sempre é de que não há sociedade civil, que os cidadãos não se organizam, que não agem civicamente. Enfim, o nosso atraso... Temos, assim, o povo a queixar-se deles, os políticos. E os políticos e as elites a queixarem-se do povo, da fraca sociedade civil.
Pessoalmente, e para as legislativas, há já algum tempo que me recuso a pôr uma cruz de quatro em quatro anos num quadrado com uma sigla. Ainda por cima as siglas são feias, obsoletas, já que as forças políticas não actualizam o design por receio de perda de votos. É pobre e é curto.
E o que é que eu precisava para voltar a votar? Adianto algumas propostas para não ser só malhar no sistema. Precisava:
1.º De conhecer o programa do Governo de todos os partidos – de preferência num documento único normalizado, comparativo, num máximo 15 páginas A4, com os objectivos estratégicos e operacionais da legislatura elencados; para quem queria podiam continuar as festas das febras e os comícios, mas aboliam-se os cartazes de rua, a televisão, a rádio e a net chegavam e sobejavam;
2.º De conhecer o candidato a PM e os candidatos a ministros, pasta a pasta, através dos currículos e de entrevistas em que se abordasse sobretudo a temática da pasta? Não me chega conhecer apenas o candidato a PM que depois escolhe quem quer e lhe apetece, sem que eu, eleitor, tenha uma palavra a dizer sobre isso;
3.º Conhecer os candidatos a deputados pelo meu distrito, através dos currículos e de entrevistas? Sobre o desempenho deles no Parlamento, quero avaliar através de indicadores de medida: quantos projectos e/ou documentos apresentaram, quantas intervenções em plenário fizeram e quanto duraram, em quantas comissões participaram e quanto tempo falaram. Tipo: análise que se faz dos jogadores de futebol depois de cada partida: fez não sei quantos remates, não sei quantos foram à baliza, correu não sei quantos quilómetros, etc.;
4.º Poder monitorizar semestralmente ou anualmente a execução dos objectivos estratégicos e operacionais, medida a medida – sector a sector.
O voto seria efectuado através de uma plataforma electrónica e a monitorização da execução das medidas idem. Se já é universal a entrega do IRS por esse meio, o voto poder-se-ia igualmente fazer desse modo. Quem não tivesse meios ou autonomia tecnológica para tal, esse serviço ser-lhe-ia prestado através de um balcão digital instalado na respectiva estrutura autárquica de proximidade, com um boletim sensível ao toque, garantindo assim a confidencialidade do processo. Existiriam graus de participação: quem quisesse ser eleitor de grau 1, apenas preencheria o boletim de voto electrónico, quem quisesse ser eleitor de grau 2, integraria o modelo mais participativo. O controle da execução das medidas do Governo seria feito pelo Parlamento com base no tratamento dos dados obtidos via plataforma.
Fácil, não! ;-)

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5 de novembro de 2008

I want...

Já por aqui afirmei que, desde há alguns anos, raramente voto. Hoje, só voto quando acredito nos indivíduos e nos projectos por detrás deles. E a ordem é mesmo essa: indivíduo e projecto. Tenho de me rever neles. Recuso-me terminantemente a votar no mal menor. Como acredito profundamente no regime e nas instituições, a decisão de não votar foi ponderada, meditada, sopesada. E custou-me. Comecei por diversificar o voto. Evolui depois para o voto em branco. E acabei por cair na abstenção consciente. Recordo-me ainda, como se fosse hoje, e não tem muitos anos, do dia em que pela primeira vez não votei. Acompanhei inclusive a minha mulher à secção de voto, mas fiquei à porta. Doeu-me fazê-lo, mas não votei. Não votei porque acredito que a abstenção pode ter uma leitura política e cívica. Como, para já, as taxas de médias de abstenção em Portugal não são assim tão altas, essa leitura, apesar de alguns sustos pontuais, ainda não se fez. Mas tem de se fazer. Na política e à frente da Nação têm de estar os melhores de nós. Esta madrugada, ao ouvir o discurso de Obama (1.ª parte; 2.ª parte), tive pena de não aparecer por cá ninguém desta qualidade para, uma vez mais, poder votar...
Eu quero votar...

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15 de julho de 2007

O riso e o vómito

Sede do PS em noites eleitorais no Hotel Altis. Numa das primeiras ligações das televisões da Pólis, o repórter José Manuel Mestre percorre a sala para pequenas entrevistas às pessoas anónimas aí presentes. São várias, mas nem uma de Lisboa! É gente arrebanhada nos locais mais recônditos da Pólis e que o aparelho local do PS trouxe a ver Lisboa e para fazer número nas manifestações de apoio ao candidato vencedor. Uma delas nem sabia ao que vinha. Disseram-lhe só que vinha a Lisboa. Retenho os nomes de duas localidades: Teixoso, Freixo-de-Espada-à-Cinta… Cá em casa houve risos… Alinho num riso superficial, mas lá no fundo enoja-me este tipo de manobras, por tão primárias… E se em eleições nacionais, isso se disfarça, em eleições autárquicas intercalares, não há disfarce possível… É também nestes pequenos pormenores que se vê a qualidade da nossa democracia… Um vómito...

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Legitimidade moral ou jurídico-formal

As eleições intercalares autárquicas da capital da Pólis terminaram. A abstenção foi, à hora em que escrevo, de 60%, um pouco menos ou um pouco mais. Foram portanto a votos menos de metade dos eleitores inscritos. Pergunto-me qual a representatividade moral do próximo executivo camarário?! Não da representatividade jurídico-formal, essa tem-na toda. Mal vai a democracia quando caminha para quóruns de representatividade de colectividade de bairro. Já vi alguns justificar a abstenção pelo período de férias. Atente-se até que o tempo esteve péssimo e não deu para a praia. E pelas férias. São explicações fáceis, demasiado fáceis para justificar mais de 60% de ausências! E eu passei, no final da tarde, e pela primeira vez, conscientemente pela porta de uma assembleia de votos sem votar, não sem alguma tristeza, e segui em frente rumo ao café acompanhado por uns jornais e revistas com que me mantenho informado sobre a vida da Pólis, daquela Pólis em cujos representantes não fui votar…

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11 de julho de 2007

Campanha de «serviços mínimos»

A campanha para as eleições intercalares autárquicas foi globalmente muito fraca. Os candidatos não se esforçaram, as televisões não se esforçaram, os jornais não se esforçaram. E os candidatos ou a Comissão Nacional de Eleições, que não sei por onde anda, não os obrigaram a esforçar-se. Tivemos assim uma espécie de campanha de serviços mínimos. A RTP fez um debate com o magote e houve umas mini-entrevistas, por obrigação, aos candidatos – e creio que não a todos – de que me lembro ter visto de passagem uma ou outra. As outras televisões quase a ignoraram. Assim sendo, decidi, desta vez, nem sequer pôr os pés na assembleia de voto. Registe-se que, desde que tenho capacidade de voto, só por uma vez, e por um motivo de força maior, deixei de cumprir o mais importante dever cívico da Pólis. Vou lá sempre, nem que seja para votar em branco – a maior parte das vezes – ou nulo, ultimamente. É uma forma de dizer ok ao sistema e ko aos seus agentes. Evoluo agora conscientemente para a abstenção, veremos se para durar. E faço-o porque o voto branco ou nulo não tem nenhuma leitura de penalização para os agentes do sistema político. É puramente residual. O que verdadeiramente os penaliza é a abstenção, porque põe em causa os alicerces do sistema e, em última análise, eles próprios. Lamento ter de fazê-lo, mas é a única forma de castigo que me resta para expressar o meu desgosto com a actual vida cívica da Pólis, a que se junta esta campanha de serviços mínimos. Terei provavelmente que deixar metabolizar este meu descontentamento com a qualidade da vida cívica da nossa Pólis e o pessoal político esforçar-se mais para, então, eu voltar a ir a votos, ainda que brancos, ou nulos...

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10 de maio de 2007

A roseta figura: reflexões alfacinhas

Helena Roseta chegou-se à frente e parece que vai ser candidata à Câmara Municipal de Lisboa (CML) como independente. Já foi, aliás, independente dentro de um partido político, o que é, de algum modo, um contra-senso nos seus termos, pelo que apenas recuperou o estatuto que já teve. Soubemos também que ela havia escrito, há uns meses, uma carta ao líder do PS sobre a situação da CML, porventura constituindo-se como alternativa. Como não teve resposta, saiu do partido, exactamente agora. Realmente conveniente! Imagino que não saísse se o PS respondesse positivamente às suas pretensões e que que saísse indignada se a resposta fosse negativa. Assim, saí apenas melindrada por não ter tido resposta. Como se vê, pois, na saída só muda o adjectivo. O melindrada ouvi-o da boca de Manuel Alegre que já saiu em defesa dela. Favor com favor se paga! Deixando tudo isto de lado, confesso que racionalmente aceito este chegar-se à frente para o desempenho de cargos públicos. Quem quer, deve dizer que quer e ir à luta. Porém, talvez por educação – admito que errada – repugna-me este comportamento. Neste momento – admito ainda que não é a razão que fala – sinto nojo por ele. Naturalmente que as manobras de diversão: carta e etc. também ajudam, e muito, a compor o ramalhete. Mas, a meus olhos, pelo menos para uma coisa tudo isto serviu: foi para excluir liminarmente das minhas opções a roseta figura.

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10 de outubro de 2005

As vitórias dos candidatos arguidos: as minhas razões

Tem sido muito debatida na blogosfera, e não só, a questão da vitória de 3 dos 4 candidatos arguidos, respectivamente, Fátima Felgueiras, em Felgueiras, Valentim Loureiro, em Gondomar, e Isaltino de Morais, em Oeiras. Fica de fora, por ter saído derrotado, Avelino Ferreira Torres, em Amarante. Todos eles eram arguidos por crimes praticados no desempenho do cargo para que foram eleitos. O mais importante dos quais – pelo tipo de acusação e pelo estado a que a mesma chegou, com a emissão de um mandado de captura visando a prisão preventiva – ou seja Fátima Felgueiras, ganhou mesmo com uma percentagem esmagadora. Será que as pessoas são tolas? Será que foi a vitória do populismo, do caciquismo e da manipulação? Sinceramente penso que não. Não, porque as pessoas não são assim tão manipuláveis. Não, porque houve vitórias para todos os gostos: mais urbanas – caso de Isaltino de Morais – ou mais interiores – caso de Fátima Felgueiras. Não tem, pois, também a ver com o estrato social ou sócio-cultural do eleitorado que os elegeu. É certo que alguns desses eleitores andam com a imagem da sua «santinha da ladeira», da sua «pequena Evita» (felgueirenses) mas outros não, porventura decidindo o seu voto de uma forma mais informada e estruturada (oeirenses). Claro que para este fenómeno convergem explicações de todo o tipo. Com mais ou menos cabimento. Até já vi um sociólogo de um qualquer centro ou observatório do poder autárquico da Universidade de Coimbra apresentar Fátima Felgueiras como «A Salvadora», fazendo leituras transcendentais com o nome de «Fátima», com a metáfora da «mãe», etc., etc. Mas, então, como explicar, no outro extremo, o fenómeno Isaltino. Bom, tenho para mim que isso tem a ver sobretudo com a natureza dos crimes de que são acusados, os chamados crimes económicos ou crimes de «colarinho branco». A valoração, em termos de ilicitude, desse tipo de crimes, é socialmente muito baixa. Aceitar umas «luvas» para deixar passar um projecto imobiliário ou alterar o PDM, fugir ao fisco através de umas contas no estrangeiro, usar indevidamente ou menos regularmente os dinheiros públicos, violando regras administrativas, são crimes cuja sanção social é baixíssima. E isto porque todos nós já o fizemos e fazemos, quanto mais não seja ao mentirmos na siza da casa ou ao pactuarmos com a prestação de serviços da oficina ou do canalizador sem a correspondente factura. Crime para nós é o roubo do fio por esticão, o roubo da carteira no autocarro, o roubo do auto-rádio e do telemóvel, o roubo do relógio ou da roupa de marca à saída da escola. Aceitar um serviço sem factura, lesando o Estado; declarar um valor mais baixo nas transacções de imóveis, isso não é crime. E é aqui a meu ver que se radica a razão última da vitória destes fenómenos…
Só nas próximas gerações, quando as ensinarmos a perceber que são os impostos que nos permitem ter escolas, hospitais, estradas, tribunais, polícia, exército, monumentos, e tudo o que uma sociedade organizada deve ter… Que eles são uma obrigação de todos nós para assim atingirmos o bem comum. Que eles são o sustentáculo de uma sociedade organizada... Só aí conseguiremos inverter este estado de coisas… Neste momento e neste particular ainda estamos demasiado perto de África ou da América Latina… Se colocarmos a mão bem fundo na nossa consciência, neste voto dos candidatos arguidos está um pouco de todos nós…
Imagem - Site do STAPE

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9 de outubro de 2005

Razões de um voto

«No próximo domingo, vou levantar-me e cumprir a minha rotina matinal. Depois, hei-de vestir-me com fingida causalidade, como se votar não fosse (para mim, continua a ser) um ritual investido de uma solenidade profunda e autêntica, e irei depositar o meu voto num candidato que não me entusiasma, para evitar que outro, de que não gosto, continue a fingor que governa esta desgovernada cidade de Lisboa. Chamem-lhe «sentimento de pertença» (a uma família, a uma cumplicidade, a uma ideia), que é mais forte que tudo o que a razão nos aconselha.»
António Mega Ferreira, Visão, de 6-10-2005

Curiosas e contraditórias são as razões profundas que nos levam a votar em determinado sentido. A todos nós. Mesmo aos nossos melhores, às nossas elites. Muitas delas são do domínio do intangível, dos afectos, das emoções, como este sentimento de «pertença a uma família». A provar que no sentir profundo da nossa dimensão política todos nos aproximamos e nesta vivência «clubística» do voto a razão por vezes manda mesmo muito pouco. Confesso que tenho pouco deste espírito e tenho pena. Pena de ser tão céptico e tão incréu...

Imagem - Site Lisboa Antiga, design e concepção de Pedro Barroca

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