Os «mentideros» da Pólis… onde se fala também de dermatologia…
Acontece, porém, que a consorte trabalha numa chafarica, uma organização de nível médio, com algumas dezenas de trabalhadores, e claro, sem os privilégios da Administração Pública, mas que, contudo, disponibiliza aos seus colaboradores – lá chamam-se assim, pois trabalhadores é coisa do passado obreirista, expressão curiosamente recuperada para o léxico pelo executivo Sócrates – um seguro de saúde básico extensivo – pasme-se – ao cônjuge! E, ainda por cima, costuma consultar-se com uma dermatologista de que gostou e recomenda. Acresce ainda que volta e meia a dita dermatologista aparece a comentar problemas de pele numa das televisões da Pólis. Não quer dizer que isso a recomende particularmente, mas, enfim, parte-se do princípio, se calhar mau, que isso também a recomenda... Caramba, sabe-se que só aparece na televisão quem é importante e quem tem alguma coisa para dizer... Mercê desse seguro pude, assim, beneficiar de uma consulta, pela qual paguei €40, ou seja, metade do preço de tabela. Pude marcar para daí a dias e não passei pelo opróbrio de ser um dos privilegiados por uma consulta daí a meses...
A dita dermatologista tem um consultório numa das mais conhecidas artérias de Lisboa. O espaço é num andar de habitação adaptado, como muitos, aliás. Os espaços comuns são acanhados. O balcão de atendimento é no hall de entrada, a sala de espera é num dos quartos, o gabinete médico é, presumo, numa divisão que inclui a sala de jantar e a de estar, tomando ainda, creio, o espaço de uma antiga varanda. É por isso uma divisão espaçosa, com uma generosa vidraça que abre para uma vista rasgada sobre o bulício daquela via.
A médica é uma mulher de mais de cinquenta anos, cabelos bem tratados em tons aloirados, corpo e peso cuidados para a idade. É alta, tem alguma presença e uma personalidade assertiva, o que também é apanágio da classe. É curioso que estando no atendimento duas jovens muito jovens, de aspecto esquálido, das quais já não recordo nenhum traço físico particular, ser a médica que eu recordo melhor... Ora aí está como nem só a idade faz uma mulher. Lá terei de invocar aqui um chiste marialva de um amigo que costuma dizer que as mulheres mais novas são boas para olhar e as mais velhas... Não vou tão longe! Pois aquilo é bem capaz de ser coisa dele, para se compensar de já não poder ter mulheres mais novas... Esta do ter também tem que se lhe diga, mas apetece-me que fique assim... Adiante, porém, que esta boca já me irá causar, nalgumas sedes, alguns amargos de boca… É o que dá em tempos ter sido incauto, e vaidoso, ao ponto de ter dado o endereço do blogue a umas quantas almas amigas, felizmente muito poucas...
Após umas frases de circunstâncias, entramos na consulta que se desenrola rapidamente. Aliás, eu já levava o diagnóstico feito. Ela apenas confirmou e prescreveu o tratamento adequado. O guião pareceu-me estudado: um tempo para as frases de circunstâncias e um tempo para o diagnóstico óbvio... E ainda bem, porque eu também não retiraria nenhum prazer da conversa com a senhora que me pareceu, por umas considerações que teceu sobre a orgânica da Administração Pública, ser detentora de uma atroz ignorância em tudo o que não dissesse respeito a problemas de pele...
Vou no dia seguinte à farmácia aviar as receitas – coisa em desuso hoje em dia mas que ainda se diz e recupero aqui. E saio de lá sem cerca de €100. Já se sabe que os medicamentos dermatológicos são caros, mas ainda dei por mim a indagar sobre quais tinham maior peso na conta. Ao que a farmacêutica me disse que era um anti-fúngico, de que já havia um genérico, pelo qual poderia ter pago metade do preço, mas que a médica, sem me perguntar nada, nem me dar nenhuma explicação, havia colocado uma cruz na receita, impedindo, assim, o farmacêutico de colocar em equação o genérico e a mim a possibilidade de optar. Corre nos mentideros que os médicos beneficiam de umas viagens e de uns presentes dos laboratórios por prescreverem determinados medicamentos e não outros...
Claro que de tudo o que aqui se disse correr nos mentideros são coisas que não são verdadeiras, seguramente produto de almas mal intencionadas, pois:
- A ADSE paga atempadamente e o preço justo, assegurando aos trabalhadores públicos os melhores clínicos;
- A Clínica CUF Belém marca sem discriminação doentes da ADSE e doentes particulares e de outras convenções;
- A dermatologista cinquentona acha que aqueles medicamentos é que são eficazes e não recebe nenhuma prebenda do laboratório por os receitar.




