O time-sharing dos bancos
Pessoalmente, já recebi chamadas telefónicas a oferecer-me crédito de todas as maneiras e feitios. Num caso, uma gravação pedia-me apenas para dizer sim; noutro, enviaram-me um cheque de milhares de euros em meu nome que para ser creditado na conta, bastava o seu envio num envelope RSF, etc., etc.
Sendo ainda mais concreto, dou o exemplo da compra da minha casa.
Há um par de anos comprei o apartamento onde vivo. Sem entrar em detalhes de valores. O apartamento custou 50. Eu tinha 15 e uma casa que valia 20. Como não tinha ainda vendido a casa, tive de pedir 35. Vendi a casa cerca de um ano depois e entreguei esse dinheiro ao banco para amortização do capital em dívida. Nessa altura, o banco tentou por variados expedientes dissuadir-me de entregar o dinheiro. Tive mesmo de ser algo assertivo para que a gestora de conta e um director comercial – que ela convocou expressamente para aquela reunião – aceitassem a decisão. Pelo meio, tentaram vender-me investimentos e aplicações sem que eu nunca os tivesse pedido. E nem sequer pude dar os 20 que recebi da venda da casa, apenas me permitiram entregar 17,5, já que o contrato só autorizava, sem juros, uma amortização anual inferior a 50% do capital. Ou pagaria uma taxa de juro obscena. E mesmo para entregar esse dinheiro ainda tive de pagar uma taxa administrativa de €125.
Continuei, nos anos seguintes, a fazer amortizações de capital de sensivelmente 50% do empréstimo, pagando, até há dois anos, em que o Banco de Portugal acabou com essa marmelada, uma taxa administrativa de €125. Só em taxas para entregar o dinheiro paguei, ao longo de alguns anos, umas centenas de euros. Ora, como se vê por estes exemplos, os bancos também promovem o endividamento. Aliás, esse mesmo banco enviou-me em tempos – sem que eu lhe pedisse – um cartão de crédito que nunca usei, obrigando-me, para desistir dele, a um pedido por escrito e cobrando-me uma taxa obscena por ter tido um cartão que nunca pedi e que nunca usei. Isto com base apenas no «quem cala, consente»!
Sinceramente, hoje já pouco distingue os bancos – que há 20 atrás eram instituições idóneas e com alguma ética de comportamento – dos vendedores de time-sharing que nos abordavam na Rua Augusta vendendo férias...
Foto - TSF
Etiquetas: Bancos
9 Comments:
Absolutamente de acordo, meu caro Politikos. Hoje, no jornal das 9, a Helena Roseta, comentando as declarações do João Salgueiro, disse exactamente o mesmo. Há culpas de todos (isto acrescento eu).
Bom fim-de-semana! :-)
Cara Luísa
Fantástico! Não só a vejo concordar comigo, como a vejo concordar com a Roseta?! Interrogo-me por onde anda - nestes dias - a sua costela - deverei dizer esterno - «ultra-liberal»?!
A culpa de todos já está assumida em cima, quando se fala em meia verdade. É óbvio que os portugueses têm culpa, como a têm os bancos e os reguladores. Porém, se tivesse de os ordenar, e com as campanhas dos bancos, poria os bancos em primeiro, os portugueses em segundo e os reguladores em terceiro. Os bancos são aqui os mais conhecedores e os especialistas na análise de risco...
Óptimo fds tb para si
Eu que nunca pedi um tostão emprestado a um banco, senti-me insultada pelas declarações do dr. João Salgueiro. Ele tem obrigação de saber a fraude gigantesca arquitectada e promovida pelos bancos que precipitou esta marmelada para não lhe chamar crash.
E não lhe ouvi uma palavrinha de indignação relativamente aos ordenados e prémios obscenos dos senhores administradores que andaram a enganar meio mundo.
Bom, cara Maloud, só falei aqui no plano nacional onde, apesar de tudo, não se chegou ao que aconteceu com o «subprime» americano... Sobre esse, então, muito, mas mesmo muito haveria a dizer... Sobre isso, ainda só consegui ouvir, de todos os ultra-liberais cá da praça e das outras praças, uma declaração do Greenspan, dizendo que não seria necessariamente mau haver empresas que desapareceriam, de resto, parece-me andarem todos a ansiar a «intervenção do Estado» para salvar o sistema...
Vai cá chegar. Olhe o Fortis "parceiro" do BCP nos seguros, que este vendia às octagenárias como sendo um produto de risco zero. E a sirigaita gestora de conta, com o print tirado do próprio site do BCP, indignava-se: Se o BCP, o maior banco português garante... A única coisa que o "maior baco português" garante são aposentações multimilionárias aos seus ex-administradores todos competentíssimos.
Aqui entre nós que ninguém nos ouve, se uma octagenária que eu cá conheço tivesse os meus genes, já tinha esbofeteado a sirigaita.
Cara Maloud. Não lhe conhecia esse temperamento sanguíneo ;-)
Então quer obrigar a pobre anciã a esbofetar a sirigaita?! :-)
Parece-me que sim, que vai cá chegar, de forma muito diminuída e sobretudo indirecta mas vai.
Sobre o comportamento dos bancos, aquilo agora - a nível dos balcões - está exclusivamente entregue a jovens de vinte e poucos anos, aos quais fazem umas «lavagens cerebrais» para lhes introduzirem «a cultura da empresa». Há um ou outro mais consciencioso, mas a maioria - posso estar a ser injusto mas é o que acho - são uns «yuppies» hormonais sem qualquer densidade. Pelo que é preciso máximo cuidado com aquilo que eles nos dizem e nos querem impingir.
Sobre «o maior banco português», fui a uma dependência deles há 5 anos, quando pedi crédito para a minha casa, e dei com um funcionário a «assobiar»: isto na Rua do Ouro?! Fiquei logo esclarecido sobre a excelência da instituição. O atendimento foi medíocre e sem nenhuma alma. Aquilo ganhou demasiada escala e os procedimentos de qualidade parece-me terem afrouxado. O que aconteceu pode ser - em parte - resultado disso.
Creio - pelo que ouço - que o seguro da sua anciã deve estar a salvo.
Qual seguro? Ela é uma das seguradoras.
Mais um dia como este e fico definitivamente piurça como o Bush. Aturei toda a sessão do Congresso através do Washington Post, com uns telefonemas ansiosos a apimentarem a coisa. Um inferno!
Calma, Maloud, que o Plano Paulson corre o risco de vir a ter ainda mais versões do que o Tratado de Lisboa... Ou seja, tantas quantas as necessárias para a sua aprovação... ;-)
E eu que pensei que Vexa tinha dificuldades com o idioma de Shakespeare e afinal até lê o Washington Post... ;-)
Não li. Vi e ouvi. Eles tinham um live, melhor que o da CNN.
Temendo a saga, demiti-me hoje do alto cargo de assessora financeira. Retomei a assessoria da trapada. Vendo bem é menos estafante.
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