26 de dezembro de 2007

Vínculos&etc.

É praticamente definitivo. A lei conhecida por lei dos vínculos, carreiras e remunerações da Administração Pública irá ser aprovada, mais ou menos nos mesmos termos em que foi proposta pelo Governo e aprovada pela maioria que o sustenta na Assembleia da República (AR). O Presidente da República suscitou a análise da constitucionalidade de alguns artigos. Mas neles não estava incluída a questão da natureza do vínculo dos funcionários públicos. Basicamente, e no que me interessa focar, a lei transforma o regime jurídico de vinculação da maior parte dos trabalhadores da Administração Pública que passam de Nomeação Definitiva para Contrato por Prazo Indeterminado. O que pretendo aqui relevar - não sem algum espanto, diga-se - é a facilidade com que o Estado, e este Governo em particular, de uma penada e através de uma simples lei, se prepara para alterar unilateralmente a natureza da relação contratual e para revogar retroactivamente, no que respeita ao tipo de vínculo, os termos de milhões de despachos de nomeação de milhares de pessoas e de dezenas de governos que o antecederam. E isto passa-se num Estado que dizem ser de Direito. Não sei onde fica, confesso, o princípio da não retroactividade das leis?! Saliento, porém, que esta questão do vínculo é para mim, enquanto funcionário público e cidadão, meramente simbólica – creio mesmo que ela não me irá afectar, pelo menos no imediato - mas diz muito, em termos éticos, da prática política do actual Governo. Cabe, já agora, referir que, exceptuando duas ocasiões, e sempre que tenho votado em eleições legislativas (muitas vezes faço-o em branco), votei PS. Cabe, ainda e já agora, também referir que, depois da aprovação deste diploma, não equaciono voltar a votar PS. Por último, importa referir que, e apesar de tal me ter afectado directamente, nunca ninguém me ouviu dizer nada em relação ao congelamento das progressões das carreiras, aos congelamentos salariais, aos aumentos inferiores à inflação, à perca sistemática de poder de compra, ocorridos nos últimos anos. E nada diria, por exemplo, em relação a um aumento do nível dos descontos mensais para a ADSE e para a Caixa Geral de Aposentações. E até mesmo nada teria dito, em nome do equilíbrio das contas públicas, em relação a uma redução do vencimento em alguns pontos percentuais. Mas digo-o em relação à alteração da natureza do vínculo, por ser uma questão que - a meu ver - quebra os mais elementares princípios da ética política republicana que me habituei a considerar da tradição do PS.

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8 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Posição muito semelhante à desta praça.
Antigo coronel do exército, que já jovem tenente, se permitia comentar a um alferes miliciano: F..., não achas que nós até não estamos mal pagos?
E isto, enquanto se dava cabo do coiro, da saúde e por vezes da vida, em África.
Agora e no ponto a que isto chegou, e mesmo admitindo que havia que tomar muitas das medidas tomadas, ao nivel do governo, para concluirmos, dramáticamente:
É de mais, colaborarmos como temos feito, na farsa deste governo de banqueiros orientados por um socialista tipo Ali Babá, no BdP.

quinta-feira, dezembro 27, 2007 10:08:00 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Meu caro Politikos, creio que compreenderá as razões por que me agradou tanto este seu «post» e me sinto tão incapaz de o comentar criticamente: é sempre bom acolher no bando dos politicamente cínicos uma «avezinha» que andava tresmalhada. :-D Aproveito para lhe confiar uma discreta perplexidade. Conheço mal o regime de vinculação dos trabalhadores da Administração Pública e é talvez por isso que não consigo aperceber-me das diferenças entre esse regime e o do contrato de trabalho por tempo indeterminado. O que é que a mudança implica na prática?
Desejo-lhe um excelente ano de 2008. Espero que a vida nos surpreenda com muitos momentos felizes.

terça-feira, janeiro 01, 2008 8:00:00 da tarde  
Blogger Politikos said...

Cara Luísa/Luar
Compreendo-a, perfeitamente. E já calculava o efeito que este poste iria causar em si. Lamento, porém, desiludi-la, mas os efeitos não vão além do que está dito no poste. Ou seja, não irei engrossar o contingente de votantes em qualquer outra formação partidária, nem o «bando dos politicamente cínicos» ou qualquer outro bando ou redil. Apenas não voltarei a votar no PS porque, para além dos que lá estão, no Governo e no partido, não ouço ninguém dizer o que quer que seja em relação a algumas coisas, como esta que aponto. E ainda que no futuro, dispam a pele de lobo, vestindo a de cordeiro, tal não será o suficiente para me convencer a voltar a votar nesse partido. Também não irei, doravante, alinhar no discurso «anti-político» que não faz parte da minha matriz, nem concordo com ele.
Sobre a lei e as suas diferenças, o link para a proposta de lei está lá, é só ler e do texto da mesma e dele retirar as devidas ilações. Nem precisa sequer de conhecer o anterior regime de vinculação – que eu sei que conhece – basta que leia este e analise as diferenças entre os vários regimes nele previstos e faça a ponte com a lei geral do trabalho. Veja que já lhe estou a dar umas dicas! E isto não sendo jurista! Imagine que o era! ;-)
Agradeço-lhe muito os seus bons votos e desejo-lhe também um óptimo 2008

quarta-feira, janeiro 02, 2008 10:44:00 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Gostei muito desse post e seu blog é muito interessante, vou passar por aqui sempre =) Depois dá uma passada lá no meu site, que é sobre o CresceNet, espero que goste. O endereço dele é http://www.provedorcrescenet.com . Um abraço.

domingo, janeiro 06, 2008 11:33:00 da manhã  
Blogger maloud said...

E a procissão ainda vai no adro, meu caro.
Um doce 2008 seja qual for a vinculação, desde que a mantenha.

segunda-feira, janeiro 07, 2008 7:36:00 da tarde  
Blogger Politikos said...

Imagino que v., com a segurança com que o afirma, também colabore na organização da «procissão», se calhar até segura mesmo no «andor»?! Ou prefere só ver da janela?! Acha, pois, que eu devo estar agradecido por manter o «vínculo», o que significa estar agradecido «por ter trabalho»?!?!
Sabe, Maloud, o seu comentário fez-me lembrar tempos antigos, muito antes mesmo de eu nascer, quando se convocavam manifestações para agradecer ao «Doutor Salazar» ter-nos «livrado da guerra»...
Pode, assim, em lugar da tal «procissão que vai no adro», que é coisa muito católica, organizar uma manifestação de funcionários públicos para agradecer a outro «senhor» - vamos deixar de lado os títulos, não é assim! - manterem o seu posto de trabalho...
Tenha também um «doce» 2008, seja lá o que isso for.

segunda-feira, janeiro 07, 2008 11:03:00 da tarde  
Blogger maloud said...

Lamento ter sido mal interpretada. Afinal dois anos não chegam para me conhecer minimamente.

segunda-feira, janeiro 07, 2008 11:10:00 da tarde  
Blogger Politikos said...

Dois anos talvez também sejam suficientes para se ter percebido que – e a avaliação é minha e por isso contestável – podendo haver por aqui assertividade, não há arrogância. Nem acho que tenho sempre razão. Estou, por isso, sempre disponível para o diálogo e para rever a minha interpretação dos comentários expressos, mesmo daqueles que sendo tão curtos não se prestam a grandes exercícios de intertextualidade...

quinta-feira, janeiro 10, 2008 12:16:00 da manhã  

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