16 de outubro de 2006

É cultura, senhores!

Estamos habituados a ver cortes de estrada ou de linhas férreas por causa de reivindicações locais: construção ou melhoramento de estradas, contra a instalação de indústrias poluentes, etc. Estamos habituados a ver ocupações de igrejas por litígios com os respectivos curas. Estamos habituados a ocupações de empresas para defender os postos de trabalho. Estamos ainda habituados a ocupações de universidades ou de escolas devido às propinas, ao estado de conservação ou a qualquer outra razão de carácter material. Tirando a religião, assunto da esfera individual mas que sobretudo no Portugal rural ainda ocasiona este fenómenos, em todos os outros casos estão em causa bens essenciais, bens materiais: vias de comunicação, saúde pública, postos de trabalhos, ou então apenas o vil metal. Porém, hoje, fomos surpreendidos por uma ocupação de um teatro, o Rivoli, no Porto, por se temer a sua entrega a privados e a consequente adopção de uma política estritamente comercial. Ainda por cima, parece que o protesto terá sido espontâneo. No final da sessão, os actores desafiaram o público e umas dezenas de pessoas aceitaram barricar-se, fechando-se a cadeado e exigindo ser ouvidas pela autarquia. Confesso que acho que, pelo que está subjacente a este acto, que não é dinheiro, que não é um bem básico, que é um bem do espírito: cultura, ainda há algumas razões para acreditar na Pólis.

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5 de outubro de 2006

Idomeneo e MST

Tem sido glosada até à exaustão a decisão da directora da Ópera de Berlim de suspender a produção da ópera Idomeneo, de Mozart, onde, a certa altura, se apresentam as cabeças cortadas de Buda, Cristo e Maomé, por receio de represálias dos terroristas islâmicos. Pressurosamente, os opinion makers da Pólis, todos, criticaram a decisão como uma capitulação ao terrorismo, incensando a liberdade ocidental. Na blogosfera, os opinion makers, os candidatos a opinion makers e os outros alinharam pelo mesmo diapasão. Não consegui ver uma única opinião em sentido contrário. Pessoalmente, acho que a directora da Ópera agiu com prudência. Pessoalmente, se estivesse naquela posição, faria exactamente o mesmo. Não existem valores absolutos, nem sequer a liberdade que, aliás, é um dos - senão mesmo o - valores que eu mais prezo. O que me parece é que estas vestais, esta espécie de libertários à outrance, se arvoram em paladinos de um tipo de liberdade absoluta, de uma liberdade sem responsabilidade, de uma liberdade indeterminista que nunca existiu. O maior exemplo de liberdade é exactamente a possibilidade de escolha e escolher como escolhemos não nos diminui, não nos menoriza, nem significa medo. As condicionantes da liberdade não anulam a liberdade. E não nos esqueçamos de que todos os dias, todos – inclusive as tais vestais - praticamos pequenos e grandes actos de auto-censura. Lembrei-me disto a propósito de um texto de Miguel Sousa Tavares (MST) publicado esta semana pelo GEPP (nome que O Expresso tem neste blogue), acerca da entrevista de José Maria Aznar, ao Prós e Contras, e onde a certa altura refere a opinião do antigo director do jornal a propósito da invasão do Iraque: «a menos que se aceite a extraordinária tese então defendida aqui no Expresso pelo arq. José António Saraiva de que só invadindo é que se poderia saber se havia ou não armas […]». Ora todos, e o Pólis&etc. à cabeça, reconhecemos a independência e o desassombro de MST em relação a tudo que é poder na Pólis. Se há algum opinion maker independente é MST. É um jornalista que nunca se rendeu aos cantos de sereia do poder e que atira indistintamente à esquerda e à direita. Tirando alguns temas residuais em que cega e irracionalmente defende a sua dama, mas até, nalguns casos, declara previamente interesses: tabaco, FCP, caça e touros, por exemplo, MST encarna – quase todos concordarão - a máxima independência do comentário político da nossa Pólis. Alguém, porém, acredita que se o arq.º Saraiva (é também curiosa a manutenção do título) ainda fosse director do jornal, MST escreveria aquilo… Alguém, ademais, acredita que, com aquela espécie de autismo anti-crítica de que o GEPP sofre, tal seria publicado…

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1 de outubro de 2006

Mais um esbulho legal

Ontem à tarde desloquei-me de Lisboa a Mafra para assistir ao concerto inaugural do Festival de Música de Mafra. Tomei a A8, no lanço que vai do final da Calçada de Carriche e a Malveira, e paguei, como habitualmente, €0,70, por cerca de 30 quilómetros. Uns metros à frente, vi de novo uma indicação de auto-estrada, agora para Mafra, e disse para comigo: «excelente, já acabaram este troço, o que há muito se justificava». Entrei na dita e num estalo estava em Mafra. Mal entrei, aliás, já estou a sair: a distância deve ser aí de uns seis quilómetros. Como sempre: Aviso de Portagem; Prepare o pagamento; mostrador electrónico: €0,55. Perguntei ao portageiro, em ar de gozo, qual era o preço daquela portagem ao quilómetro, ao que ele me respondeu com um sorriso benevolente e o ar de quem já ouviu aquela pergunta: «mais ou menos €0,10». Como não recebi recibo, nem sequer sei quem é a empresa responsável por este esbulho. A Auto-Estradas do Atlântico que gere o percurso até à Malveira não é, porque esse troço não consta do seu site. Agora o que sei é que é um esbulho. E se a moda dos 0,10€ ao quilómetro pega, quanto é que, por exemplo, nos custaria uma viagem de Lisboa ao Algarve ou de Lisboa ao Porto… Como diria o outro: «É só fazer a conta»… O que me questiono é sobre quem regula os preços das auto-estradas em Portugal, se existem preços máximos e mínimos para o custo por quilómetro e quais os critérios de cálculo do valor a pagar.
Já agora, o concerto – dos Banchetto Musicale Lusitania - foi muitíssimo interessante e original na coreografia e no aproveitamento das possibilidades sonoras do espaço da Biblioteca do Palácio/Convento de Mafra e salas contíguas e nem sequer foi de música barroca, como seria de esperar, mas sim de música medieval e renascentista ibérica. Valha-nos isso...

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30 de agosto de 2006

Valências camilianas


E como estamos numa de Camilo, deparámos nas páginas do Courrier Internacional (CI, n.º 70) com um anúncio de página inteira, publicitando o Centro de Estudos Camilianos, em S. Miguel de Seide. Graficamente bem concebido, o anúncio da Câmara Municipal de Famalicão conta com duas frases de apresentação, uma da ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, e a outra do presidente da autarquia, Armindo Costa, e logo por baixo apregoam-se as valências da Casa de Camilo, porém escritas «valéncias»... Ora isto não teria grande importância: um acento agudo em vez de um circunflexo, no meio das asneiras que se vêem escritas por toda a parte na imprensa, não é coisa de palmo... O caso é que aquilo vem logo por baixo da tal frase do autarca em que se diz:

«Para além de espaço de cultura, de defesa e estudo da língua portuguesa, a Casa de Camilo, com a obra projectada por Siza Vieira, assume-se também como um pólo turístico que projecta o Município de Famalicão em Portugal e no Mundo».

Valha a verdade, porém, que num segundo anúncio, publicado no mesmo CI (n.º 72) duas semanas depois, o erro já aparece corrigido. Decerto por voz camilianamente atenta...

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