19 de outubro de 2008

Cavernícolas

A blogosfera portuguesa é um mosaico da nossa sociedade. O povo que somos está lá escarrado. Quando comecei a frequentar o meio, choquei-me com algumas coisas. Uma delas foi com um certo cascanço caceteiro nos políticos: uma espécie de caça às bruxas do nosso tempo. Os que o fazem têm uma bitola para si próprios e para o resto da sociedade e outra para os políticos. Julgam-se superiores a eles, não percebendo que saem exactamente da mesma massa e do mesmo forno. Os políticos emanam do todo social que nós somos. Pensava que essa atitude era sobretudo apanágio de bêbados de taberna e de opiniosos motoristas de táxi. Mas não é e está bastante bem representada na blogosfera. Por baixo dessa camada, descobri ainda uma segunda camada que praticamente desconhecia e que – não tendo grande expressão – porém, existe. A de uma gente cavernícola que não só despreza os políticos, como despreza o regime democrático que eles representam e onde eles também vivem. Faz garbo nisso e até o ostenta. Essa gente anda ligada numa pequena comunidade orgânica de uns quantos blogues que se lincam e se comentam. E nela há literalmente de tudo e de todas as tendências. Há os que se assumem e há os que ainda não sairam do armário, nutrindo mais ou menos dissimuladas simpatias. Não sei se o regime – enquanto tal – exerce algum tipo de vigilância sobre essa gente. Talvez nem seja preciso. Parecem-me de um modo geral, e quando muito, uma espécie de Quixotes intelectualmente ofensivos mas na prática inofensivos. Ninguém os leva a sério. O que ressalta porém disto tudo é que a democracia é também o regime que permite a existência no seu interior de gente que se expressa contra ele. E esse é o sinal incontestável da sua superioridade moral. É talvez no plano prático a sua maior fraqueza, mas é certamente no plano teórico a sua maior força.

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21 de agosto de 2006

Os nossos prolixos bloguers...

De vez em quando aparecem pela boca de alguns intelectuais e opinion makers da Pólis: os suspeitos do costume, algumas referências vagamente depreciativas em relação aos blogues e aos bloguers da Pólis... Como se as coisas do espírito e o ter opinião fosse uma coutada daqueles. Não é! Desta vez foi Daniel Oliveira no Grande Educador do Povo da Pólis (nome comum: O Expresso - n.º 1762) que se refere, a (des)propósito, na sua coluna semanal aos «nossos prolixos bloguers»... Não sei porquê mas acho que esta democratização do espaço público de opinião trazida pelos blogues causa uns certos engulhos àquelas classes...

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29 de junho de 2006

Attenborough nas caixas de comentários

Nas caixas de comentários dos blogues, em particular dos blogues principais e abertos, vê-se de tudo, pela positiva e pela negativa. Na versão rural, é um pouco como andar na selva, onde a fauna animal é variada. Na versão urbana, é um pouco como andar na estrada, onde a fauna humana é igualmente variada. Decidi aventurar-me a um exercício de categorização e de caracterização, à David Attenborough, dos três tipos dominantes pela negativa:
1.º O carroceiro puro e duro – caracteriza-se pelo uso de linguagem adjectiva forte, onde o palavrão e/ou insulto soez aparecem como complemento da maioria das frases. Impera o tratamento por tu. Usa-se e abusa-se das interjeições. São sobretudo anónimos mas também os há com nick;
2.º O carroceiro mitigado – igual ao primeiro, mas sem o palavrão que é substituído pelo insulto vulgar. O tratamento pode ser por tu ou por você. Todos têm nick;
3.º O carroceiro-intelectual – basicamente igual ao anterior, variando apenas na quantidade dos insultos, que é menor, e acrescendo o uso da ironia e a inclusão de algumas referências intelectuais ou para-intelectuais. O tratamento é sempre por você. Todos têm nick.
Por norma esta gente não tem blogue, limitando-se apenas a comentar nos blogues alheios, porventura para se furtar à exposição a outros da mesma espécie. O grau de cultura e de informação é variável nas três espécies referidas, provando-se, também aqui, que só gramaticalmente instrução rima com educação…

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24 de maio de 2006

Profissão blogger

Há uns dias ganhei uma nova qualidade que vou passar a incluir no curriculum, a de blogger... Eu realmente escrevo para aqui umas «coisas», não pensava é que isto já dava direito a função com certo estatuto e reconhecimento social na Pólis e ainda por cima capaz de emparelhar com outras mais nobres funções da vida! Mas parece que sim! É que na Visão, da semana passada, secção Cultura (Feira do Livro), ao apresentar-se o livro O eduquês em discurso directo, de Nuno Crato, diz-se:
«Recomenda-se a professores e alunos, pais e educadores, a bloggers e colunistas... e, sobretudo, a ministros».

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