8 de março de 2009

Technicolor II

Continuando na boa onda do tecnicolor, mais um filme que não é a preto e branco: O Leitor, belíssimo filme, da que parece ser a boa safra de 2008. É um filme intuitivo sobre o crescimento interior do intérprete masculino que faz um notabilíssimo percurso pessoal, que vai do desejo físico do jovem de 15 anos por uma mulher mais velha, à paixão por ela, à culpa, ao remorso, ao dilema moral para impedir uma condenação severa, à remissão, quando lhe fornece cassetes com livros gravados, à compaixão e à gratidão, quando providencia o acolhimento aquando da libertação, à catarse final do destino a dar aos seus bens pessoais, e por fim à absolvição, com a confissão final à filha. É uma viagem íntima, pessoal. Fundamental, fundamentalíssimo no seu percurso – ele é advogado – é a compreensão, ainda estudante, da diferença entre a moral e a lei, e de como a lei, por si só, é quase sempre muito incompleta para entender e julgar o mundo. A diferença entre o legalismo do professor de Direito, do colega a preto e branco com quem discute no auditório, e do próprio juiz do julgamento de Nuremberga e os que a procuram compaginar com a moral e com a ética, é igualmente um por(maior)menor relevante.
Kate Winslet tem um desempenho notável de uma mulher rude, que não chega a entender completamente o mundo que a rodeia, que responde primitivamente aos impulsos, sem qualquer crivo moral, que cumpre rotineiramente o que lhe mandam, sem se interrogar. Também aí a maldade é desmistificada. Ela não é a encarnação absoluta do mal. É apenas uma mulher rústica, quase ignorante, que acreditava cumprir o seu dever. Não lhe faltam, porém, a sensibilidade no maravilhamento com a literatura, a honestidade da sua postura no julgamento, a dignidade na morte.
Viva o tecnicolor!

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25 de fevereiro de 2009

Technicolor

Num mundo onde tudo nos aparece muito digerido, muito pronto-a-vestir, muito «escolha uma opção», foi com gosto que vi o filme A Dúvida. Detesto coisas a preto e branco, pessoas a preto e branco, ideias a preto e branco. As coisas são sempre mais complexas do que isso. Foi, por isso, que gostei de ver A Dúvida e o tratamento que nela se dá ao tema da pedofilia. Sob o ponto de vista da análise, as coisas são vistas de diversos ângulos. Nenhum deles é o bom, nenhum deles é o mau. Há muita delicadeza no modo como o filme é feito e em como as coisas nos são apresentadas ou apenas ao de leve sugeridas. O estado de dúvida em que nós, juntamente com os personagens, estamos, também nos ajuda a perspectivar as coisas de outra maneira. E no fim, e apesar das capas que cada um de nós veste no seu dia-a-dia, resultado das nossas vivências, percebemos que até mesmo o mais empedernido de nós nunca é completamente a preto-e-branco…
É também dessa esperança na humanidade que nos fala o filme…

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3 de abril de 2007

A infância, essa grande escultora...

Cada vez mais acredito que a chave de toda nossa vida reside na infância. Está lá tudo o que nós somos pela vida fora. A adolescência compõe e encorpa e a idade adulta refina e burila. Mas é na infância que se moldam os traços essenciais do nosso carácter. Nela está o tosco essencial da árvore que nós somos e que depois vamos apenas esculpindo sobre uma matéria-prima pré-existente, à medida que vamos acumulando, integrando e acomodando experiências de vida. O essencial de nós, porém, nunca muda ou muda pouco e muito do que somos e do que fazemos, se procurarmos bem, está na infância. Ainda ontem me lembrei disso ao ver O Bom Pastor, um belo filme sobre a criação da CIA e dos homens que a fizeram… Matt Damon ilustra-o na perfeição. O filme começa e fecha com a infância e ela é afinal, também ali, a explicação de tudo.
Nota - E a imagem, fomos buscá-la aqui.

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26 de dezembro de 2006

The Day After

Ontem à noite revi o filme The Day After Tomorrow, uma super-produção americana, um filme da categoria dos filmes-catástrofe, que aborda as consequências das alterações climáticas no mundo. Revi, sobretudo pelos efeitos especiais e porque não me apetecia fazer mais nada. E também porque gosto de filmes concêntricos, que abordem as reacções humanas em circuito fechado e em situações limite, mas infelizmente naquele, essa característica, que poderia ter sido bem explorada, quase não existe. O filme tem poucas interrogações onde podia ter muitas e pouca densidade. Bom, mas isso interessa pouco para o que quero dizer.
A certa altura, alguns sobreviventes, refugiados na Biblioteca Pública de Nova Iorque, resolvem começar a queimar os livros para se manterem quentes (a temperatura havia baixado para mais de uma centena de graus negativos). Colocou-se, então, a questão sobre que livros queimar?! E veio à baila um livro de Nietzsche, havendo um curto diálogo sobre a importância daquele filósofo, até que um deles, no piso debaixo, diz qualquer coisa do tipo: «está aqui uma secção inteira dedicada à tributação fiscal». Portanto, foi aquela que foi queimada. Está certo! Uma nota de humor, bem à americana. Para aliviar a tensão ou «puxando-lhe o pé» para a caricatura, como por vezes acontece com as fitas americanas.
E eu não deixei de me interrogar, nesta época em que o economicismo domina, que livros é que cada um de nós preservaria em idênticas circunstâncias?! E sobretudo que livros Bill Gates, Warren Buffet ou outro dos multimilionários do mundo escolheriam?! Ou já agora, entre nós, Belmiro de Azevedo ou Américo Amorim?! Será que preservavam as obras dos gurus da economia?! Ou, nesse momento, escolheriam as grandes obras do pensamento ou da literatura universais?!
P.S. – Já agora registe-se que um dos sobreviventes, num arroubo de conhecimento um bocado mal amanhado para a personagem, resolveu preservar um exemplar da Bíblia de Gutenberg - descontando as polémicas - o primeiro livro impresso conhecido, havendo depois uma ou outra deixa nos diálogos sobre a importância da preservação da cultura ocidental através dos livros. Achei interessante mas ali metido a martelo. Assim que vi a cena, logo me pareceu que o exemplar da Bíblia de Gutenberg não era um original. A encadernação pareceu-me um pastiche recente (nem sequer acho que fosse um fac-símile, pelo menos de qualidade). O formato estava certo, mas a dimensão da lombada pareceu-me que não (porém, como há alguns exemplares em pergaminho, dei de barato este indício). Além disso, a Bíblia de Gutenberg tem dois volumes e só lá vi um. Umas pesquisas no que existe cá por casa e na net deram-me a quase-certeza. Na verdade, a New York Public Library (NYPL) possui um exemplar deste incunábulo, mas tem uma encadernação em marroquim azul, bem diferente, pois, da que o actor segurava. Terei que rever a fita novamente para confirmar ou infirmar estas minhas quase-certezas. Não vale a pena afirmar sem prova. A confirmarem-se, porém, creio que num filme com aqueles meios, e ainda por cima utilizando o próprio espaço daquela biblioteca, fica no mínimo mal…
Nota - E a imagem, fomos buscá-la aqui.

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18 de julho de 2006

Gigantes

Revi no sábado passado, por mero acaso, no canal Hollywood, o filme, O Gigante, com James Dean, Rock Hudson e Elizabeth Taylor, uma superprodução americana de mais três horas que retrata as transformações sociais ocorridas no Texas com a descoberta dos poços de petróleo. O filme apresenta-nos com grande mestria os diversos tipos humanos gerados e apanhados por essa transição de modelo de vida, em que rancheiros de gado passaram a industriais do petróleo, cruzando algumas realidades da época, tais como o racismo, as condições miseráveis de vida dos assalariados mexicanos, a mentalidade do norte por oposição à mentalidade do sul. Constatei – se por acaso já havia esquecido – a genialidade do desempenho de Dean, mais evidente na fase de rancheiro e vaqueiro. Dean interpreta o papel de Jett Rink, um deserdado da sorte, rebelde, irreverente e rufia que vive por favor em La Reata, o rancho de Bick Benedict (Rock Hudson), e que depois se transforma em magnata do petróleo. Ao ver o desempenho global de Dean e os requebros do olhar e dos gestos não deixei de pensar que parte da sua genialidade advém do facto de ele próprio ser um pouco como a personagem que interpreta, de onde aquele papel seria apenas como representar uma variante da sua própria personalidade. E liguei Dean a um outro actor contemporâneo, igualmente genial, Jack Nicholson, e a algumas das suas soberbas interpretações, sobretudo a de Voando sobre um ninho de cucos - fita que aliás vai passar na próxima sexta-feira, na RTP 1 - em que os pontos de contacto entre a personalidade real do actor e a personalidade representada da personagem são para mim mais do que evidentes. O que me faz pensar na pequena distância, na linha ténue que por vezes separa a excentricidade da genialidade.

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11 de julho de 2006

Six Feet Under - I’ll miss you

Acabou a série Sete Palmos de Terra: a minha companhia das segundas-feiras à noite. Via religiosamente todos os episódios e sempre que algo perturbava essa minha companhia – como aconteceu há duas semanas com um velório (suprema coincidência) – era uma frustração…
Uma série aparentemente sobre a morte mas que afinal era sobretudo sobre a vida. Vai-me fazer falta. Honra aos seus protagonistas e a este último episódio. Absolutamente notável aquela cena final em que através de uma viagem de carro fazemos uma espécie de extensa prolepse narrativa que nos leva, como numa viagem, até à morte dos diferentes personagens... Afinal sobre o resto das suas vidas… Ou não fosse esta série sobre a morte e sobre a vida...
To Nate, to David, to Keith, to Claire, to Ruth, to George, to Brenda, to Federico, to Lisa & etc. e sobretudo ao seu autor (também argumentista de Beleza Americana): to Alan Ball...
Six Feet Under - I’ll miss you.

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