15 de janeiro de 2011

Cortes & Equidade: Público vs Privado

A dolorosa chegou-me ontem. Vou ganhar, em termos líquidos, menos €200 por mês. Curiosamente, nesse mesmo dia, preenchi uma declaração autorizando o meu Sindicato, o STE, a tomar, em meu nome, todas as acções e procedimentos judiciais tendentes à constestação/anulação desta medida.
Não acho que isso vá dar em nada. Nem sequer estou, em absoluto, contra os cortes. Até acho natural, no actual cenário, que a maior fatia do orçamento de Estado - os salários - sofra uma contracção.
Mas acho indecente que a segunda, a das reformas do sector privado, não sofra. Que outra importante, a das reformas do sector público, também não sofra. Que os salários do sector privado também não sofram. Que os restantes salários do sector público igualmente não sofram.
Aliás, a falta de equidade deste pseudo-socialismo que nos governa é revoltante. Além de ser ilógica. Senão vejamos, o Estado endividou-se não foi para pagar salários a quem trabalha para ele, foi para prestar mais e melhores serviços ao todo nacional: mais e melhor saúde, mais e melhor educação, mais e melhores vias de comunicação, mais e melhores infraestruturas de toda a ordem, mais e melhores serviços de toda a espécie, onde se incluem também e naturalmente os salários do pessoal que os presta. Fará, pois, algum sentido, no actual cenário, não chamar a dar o seu contributo, em condições de igualdade, os trabalhadores do sector privado e, na devida proporção, os demais trabalhadores do sector público?

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12 de maio de 2010

Cultura Xanax

Tive há uns tempos de fazer uma intervenção pública para uma plateia de mais de uma centena de pessoas. O que disse dizia respeito à vida daquelas pessoas, ao presente, ao futuro próximo e mesmo ao futuro distante. Conheço aquelas pessoas, aquele grupo, há muitos anos. Assisti a algumas lutas. Vi tomadas de posição acrisoladas de muitos por muito pouco. Muito embora já intuísse algum efeito Xanax, esperava, apesar de tudo, mais! Que o que disse gerasse polémica, ainda que momentânea, efémera e circunscrita! Mas não! Três perguntas circunstanciais, respostas minhas, nenhum contraditório posterior. Algumas palmadinhas nas costas no final de well done. E foi tudo!
O que se passou naquele microcosmos passa-se no País. Tenho a terrível sensação de que anda tudo anestesiado. Esperava que o recente rumor da criação de um imposto especial sobre os salários gerasse alguma polémica. Mas nada! Silêncio sepulcral, nem o mais leve sobressalto cívico! Isto dias depois da adjudicação do Ferrari das ferrovias, o TGV para passageiros de um País minúsculo numa época de voos low cost?! Nem sequer é o TGV para mercadorias, que esse anda enrolado com bitolas europeias e bitolas ibéricas nas quais ministros e outros patinam nos carris... Como é possível num dia comprar um Ferrari e no dia seguinte cortar nos salários, sem a mais leve contestação?! Não sei, mas é! Não gosto e não quero que Portugal entre no caminho da Grécia, da contestação violenta nas ruas. Mas desgosta-me esta anomia de carácter. Esta anomia que em baixa dose, pelo que representa de capacidade de adaptação, resistência e resiliência, podia ser uma enorme vantagem, nestas doses cavalares pode ser, pelo que representa de falta de ânimo vital e de exigência cívica, o nosso pior defeito.

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