15 de janeiro de 2011

Cortes & Equidade: Público vs Privado

A dolorosa chegou-me ontem. Vou ganhar, em termos líquidos, menos €200 por mês. Curiosamente, nesse mesmo dia, preenchi uma declaração autorizando o meu Sindicato, o STE, a tomar, em meu nome, todas as acções e procedimentos judiciais tendentes à constestação/anulação desta medida.
Não acho que isso vá dar em nada. Nem sequer estou, em absoluto, contra os cortes. Até acho natural, no actual cenário, que a maior fatia do orçamento de Estado - os salários - sofra uma contracção.
Mas acho indecente que a segunda, a das reformas do sector privado, não sofra. Que outra importante, a das reformas do sector público, também não sofra. Que os salários do sector privado também não sofram. Que os restantes salários do sector público igualmente não sofram.
Aliás, a falta de equidade deste pseudo-socialismo que nos governa é revoltante. Além de ser ilógica. Senão vejamos, o Estado endividou-se não foi para pagar salários a quem trabalha para ele, foi para prestar mais e melhores serviços ao todo nacional: mais e melhor saúde, mais e melhor educação, mais e melhores vias de comunicação, mais e melhores infraestruturas de toda a ordem, mais e melhores serviços de toda a espécie, onde se incluem também e naturalmente os salários do pessoal que os presta. Fará, pois, algum sentido, no actual cenário, não chamar a dar o seu contributo, em condições de igualdade, os trabalhadores do sector privado e, na devida proporção, os demais trabalhadores do sector público?

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2 de abril de 2009

O Supremo Magistrado

O caso do pedido de audiência ao Presidente da República (PR) por parte do presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público para denunciar alegadas pressões sobre os magistrados do caso Freeport é em si mesmo um acto jurídica e administrativamente inútil. Não tem nenhuma eficácia porque o PR não pode fazer absolutamente nada. Pode ouvir as queixas, mas não pode desencadear nenhuma averiguação, inquérito, processo disciplinar ou o que for. Atento o que e quem está em causa, nem sequer pode chamar o Procurador-Geral da República (PGR) a Belém ou fazer uma advertência directa. Nada! Pode, perante factos concretos, se foram apresentados, remeter a coisa para o PGR. E lá volta tudo aos mesmos. E o curioso é que alguns dizem que ele é o supremo magistrado - entenda-se aqui apenas a acepção jurídica do termo - da Nação. Não é! É apenas o supremo poder político da Nação! Não é, mas se calhar, deveria ser!

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31 de agosto de 2008

Não vamos a lado nenhum…

O ministro da Administração Interna, Rui Pereira, anunciou, como medida de combate à actual vaga de criminalidade, a revisão da lei das armas, de modo a quem cometa um crime com recurso a armas seja colocado, «sem nenhuma dúvida interpretativa», em prisão preventiva. Não sei se a afirmação, «sem nenhuma dúvida interpretativa», augura muito de bom! Tenho, desde logo, um certo horror a essa rigidez do preto e branco. E referir o «sem nenhuma dúvida interpretativa», com aquele ar grave de pseudo-autoridade que ele põe, arrancou-me um sorriso. Creio que, aliás, a todos os que ouviram. A filigrana do Direito, que se encontra nos antípodas disso, quase nunca permite tal coisa. Porém, boa ou má, é pelo menos uma medida concreta. E a única coisa aproveitável de uma certa vacuidade e mesmo de algum desconhecimento dos números – não é admissível que o ministro das polícias não saiba quantos polícias saíram nos últimos anos – que caracterizaram a entrevista de Rui Pereira à televisão.
Os ecos da entrevista foram vários. Entre os quais, um, o de António Martins, presidente do sindicato dos juízes, mais uma vez com declarações totalmente inqualificáveis e inaceitáveis. O homem sempre que fala atira-se aos políticos como o gato ao bofe, como se fossem a fonte de todos os males da Justiça e do sistema judicial. Anda sempre a debitar a costumeira cassete das desculpas que se traduz na máxima: os juízes não fazem a lei, apenas a aplicam. E lava as mãos! Nunca lhe ouvi, aliás, nada de construtivo. Apenas critica mas nunca se auto-critica e nunca propõe nada de concreto para melhorar. Aliás, se os políticos falassem dos juízes com o desprezo com que ele fala dos políticos, era um aqui d’el-rei. Desta vez, porém, ele foi ainda mais longe. E disse cinicamente que se admirava de o ministro ter proposto isso, já que a competência para legislar é da Assembleia da República (AR), para concluir depois que a AR é uma caixa de ressonância dos partidos. E se os deputados falassem assim dos juízes, o que diria António Martins?! E se os membros do Governo falassem assim dos juízes, o que diria António Martins?! E se o Presidente da República – por absurdo – falasse assim dos juízes, o que diria António Martins?! O que eu pergunto, sinceramente, é até quando vamos nós, enquanto sociedade, tolerar este tipo de afirmações por parte de quem se diz titular de um dos poderes de soberania? Como é que num estado democrático moderno, do século XXI, pode haver um poder de soberania que não é eleito e que não tem qualquer tipo de escrutínio ou de controle democrático instituído a falar deste modo dos outros poderes? Em nome de quê? Do Estado de Direito?! Mas de que Estado de Direito? De um Estado de Direito canhestro e primitivo saído directamente da pena de Montesquieu! Ora, hoje, no século XXI, a garantia das liberdades civis, o respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais, são porventura feitos mais pela mediatização e pela globalização do que pela Justiça. Enquanto não se questionar os fundamentos da legitimidade de um poder ineficiente e ineficaz, não creio que vamos a lado nenhum no aprofundamento do chamado Estado de Direito...

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8 de março de 2008

Salazar e «os democratas»

O Ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva, referiu, ontem, quando confrontado com algumas afirmações proferidas numa manifestação de professores:
1.º E cito, «certas pessoas não sabem distinguir entre Salazar e os democratas»;
2.º Que aquelas pessoas não têm autoridade moral para proferir aquelas afirmações;
3.º Que autoridade moral para isso têm ou tinham Mário Soares, Salgado Zenha, Manuel Alegre, Jorge Sampaio;
4.º Que autoridade moral não tinha ou não tem Cunhal e Mário Nogueira.
Ora, estas declarações são profundamente lamentáveis.
1.º E mais importante, porque o Ministro não reflecte sobre as razões que levam os manifestantes a comparar «os democratas» a Salazar e se calhar devia;
2.º Porque afirma ter mais autoridade moral do que os manifestantes, não se sabendo quem lha reconhece;
3.º Porque oblitera directamente a acção de Álvaro Cunhal e indirectamente dos comunistas na luta contra a ditadura;
4.º Porque coloca, completamente a destempo, Mário Nogueira nesta discussão;
5.º E último, porque ao invocar essa pretensa autoridade moral, ele não reconhece o direito de opinião aos manifestantes, acabando por lhes dar, de certo modo, razão para aquelas afirmações.
Ora, o que ele devia fazer mas não faz, porque está impante e verbalmente destemperado com a maioria absoluta que tem, era reflectir sobre as razões pelas quais surgem essas comparações... Não me vou pronunciar sobre as afirmações em concreto e sobre as razões objectivas dos manifestantes porque não as conheço...
Mas pessoalmente encontro um exemplo - aliás já por aqui referido - de um caso que considero poder suscitar uma comparação lícita entre a prática de Salazar e a prática dos «democratas»… É a lei n.º 12-A/2008, de 27 de Fevereiro, que «estabelece os regimes de vinculação, de carreiras e de remunerações dos trabalhadores que exercem funções públicas», através da qual o Estado, dito de Direito, altera retroactivamente milhões de despachos e os termos dos «contratos» celebrados com centenas de milhares de funcionários públicos...
Além disso, o Ministro tem de perceber que o que distingue a Democracia da ditadura é exactamente o direito de todos compararem tudo...

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1 de março de 2007

Nem carne, nem peixe...

Há momentos de uma grande solidão social. Sinto-os muitas vezes. É um pouco como estar na praia todo vestido. É um pouco como ser Gulliver em Liliput. Não estamos confortáveis ou sentimo-nos deslocados. Hoje aconteceu-me isto. Ainda por cima, há contextos em que temos de estar num dos lados da barricada ou então não estamos em nenhum. Estive numa sessão de esclarecimento sindical. Pensava que tal expressão já estava votada ao ostracismo, mas não está. Discutia-se a chamada lei da mobilidade especial – já agora a 53/2006 – que irá afectar a curto prazo toda a Administração Pública. A lei é um aleijão: remissiva e confusa. Ia a dizer aleijão jurídico, mas falta-me preparação para atribuir tal qualificativo. A apresentação foi feita por um advogado sindical: um bocado pintas. Adora-se e adora ouvir-se. Não sei sequer o que prevaleceu, se a lei, se os apartes jocosos. Não me revejo no estilo, confesso, mas reconheço-lhe a utilidade. O problema é que neste caso, como noutros, não consigo estar em nenhum dos lados… E isso é o que de pior pode acontecer…

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