17 de agosto de 2009
That's all folks! Uf...
1 de agosto de 2009
Crónica hospitalar e de costumes V
O meu ortopedista oficial é um indivíduo de meia-idade, já grisalho, entroncado e não muito alto, no qual ainda se percebem as raízes físicas do típico homem português de antanho. Gosta de fazer de Deus no quotidiano, ou seja, gosta do que faz e fá-lo bem. É um indivíduo horizontal no trato com os doentes, no qual deposito algum crédito de confiança mercê da experiência que lhe reconheço e de diagnósticos antigos nos quais mostrou sempre proficiência. É um homem directo, objectivo, informal no trato e com bastante capacidade de leitura das situações e das pessoas que tem pela frente. Em boa hora lá fui. Primeiro porque nem foi preciso dizer nada, já que ele me disse: «Vou querer que faça um segundo raio X para ver se isso está tudo alinhado. Essa é a minha maior preocupação!». Gosto sempre quando eles usam os possessivos (a minha preocupação), tomando para eles o problema que não é seu. Sentimo-nos logo entregues e delegamos a coisa. A consulta foi a uma sexta e ele disse-me: «Faço banco no domingo em S. José. Vá lá ter comigo, que fazemos isso». Como sou dos que criticam a norma mas cumpro-a a maior parte das vezes, ainda lhe disse: «Mas não será uma urgência!?». E ele: «Não se preocupe. Vai lá, diz que lhe dói o braço. Eles vêem o gesso e mandam-no logo para a ortopedia. E lá, pede para falar comigo». Dito e feito. Fiz o raio X de controle e estava tudo ok. E, mais-valia fundamental, as dicas que ele me deu. Disse-me que era essencial que mexesse o mais que pudesse o braço imobilizado para exercitar a articulação do ombro, que era, segundo ele, a que me provocava as dores musculares que me levaram no segundo dia à urgência: «O Sr. em casa retira o apoio de braço e mexa com todo o à-vontade o braço: a zona fracturada está imobilizada, pelo que não tem com que se preocupar». Resultado: nunca mais tive dores musculares.
To be continued
31 de julho de 2009
Crónica hospitalar e de costumes IV
A situação, como se vê, é cretina e caricata, não se percebendo sequer o porquê de não estar resolvida. Será que o truculento Correia de Campos ou Ana Jorge, com aquele arzinho entre o snobe e o negligé, tiveram/têm conhecimento disto?!
To be continued
28 de julho de 2009
Crónica hospitalar e de costumes III
Seguiu-se o aliviar da tala. Tive de ser eu a dar-lhe uma ajuda na decifração da letra encadeada do Técnico e, antevendo dificuldades, ela disse-me: «ai, ai, como é que eu lhe vou fazer isso?» Devo dizer que este episódio foi o mais doloroso de todo este processo, já que tiveram de me levantar o braço uns 10º ou 20º do ângulo recto em que estava. Já só me vi rodeado de três enfermeiros que me diziam que tinha os músculos completamente tensos e eu só dizia para deixarem aquilo tal como estava. Arrependi-me deveras de me ter queixado, mas lá me conseguiram colocar umas mechas suplementares de algodão que me aliviaram umas horas mas à noite estava quase na mesma. Lá pus eu, adicionalmente, com a ajuda de espátulas de madeira, colheres de pau e o que fosse desde algodão a rodelas de retirar maquilhagem. Valeu tudo. Mas o alívio foi curto. Em pouco tempo, aquilo ganhava cama e continuava a magoar-me de sobremaneira. Tive, então de agir por conta própria e fracturei deliberadamente o gesso naquela parte. E em boa hora o fiz, pois só assim consegui alívio daquele garrote. Quando, semanas após, no final do processo de consolidação, retirei o gesso, tinha uma enorme crosta de sangue e um valente hematoma. A enfermeira que o removeu disse-me mesmo: «Como o senhor tem isto! Não lhe doía?! E eu: «Claro que sim, daí ter fracturado o gesso nessa parte». E ela: «Foi o que lhe valeu, já que isso podia ter chegado ao osso». Pois!
É inaceitável que o Técnico de Medicina prescreva medicamentos sem explicar aos doentes o que são e para que servem. Já que o Técnico, embora pelos meus critérios não seja médico, também não é veterinário... Tal como é inaceitável que o Técnico tenha desvalorizado as queixas de dor no pulso, já que dali poderiam advir males maiores não fora aquele meu expediente...
To be continued
27 de julho de 2009
Crónica hospitalar e de costumes II
Mesmos passos e eis-me de novo na ortopedia. Desta vez, porém, tive azar. Não dei nem com o esquálido, nem com o pesadão de bigode. E fui atendido por um outro tipo. Este, porém, não era médico. Seria seguramente licenciado em Medicina. Médico não era! Já que para isso é necessária a vertente humana, coisa que de todo lhe escapava. Chamemos-lhe, pois, Técnico de Medicina, que é o que lhe assenta melhor. Tenho a ideia de ser um tipo de meia-idade, cabelo curto já grisalho, rosto redondo, olhos pequenos, de gestos despachados e voz igualmente despachada. Creio que nem sequer me fitou nos olhos e mal ouviu o que lhe disse. Uma máquina afinada de passar receitas. Após me ter queixado de dores no braço e no pulso e de ter aventado timidamente a hipótese de um segundo raio X, o Técnico prescreveu-me dois medicamentos, não me explicando sequer o que eram e rejeitou liminarmente e com algum desdém o segundo raio X. Sobre a dor no pulso, nada disse. Tive mesmo de o alertar novamente para isso, tendo ele então escrito a despachar numa letra cursiva e encadeada: «aliviar tala gessada». Lá fui para o corredor, aguardando ser atendido pela enfermeira. Como a sala era em frente e eu estive à espera bem perto de meia hora, pude ver que o Técnico – seguramente uma referência para os gestores do Hospital de S. José mas só para esses – aviou ao mesmo ritmo mais uns quantos doentes. Velhos e novos, em ambulatório ou internados, pelo seu próprio pé, em cadeiras de rodas ou em maca.
O homem é mesmo uma máquina.
To be continued
22 de julho de 2009
Crónica de costumes e hospitalar I
Há uns meses parti um braço num estúpido acidente doméstico. Estúpido, como estúpidos são todos os acidentes. Com dores que anteviam qualquer coisa de mais grave, fui à urgência do Hospital de S. José. Papéis, triagem e sou conduzido à ortopedia. Fui, então, atendido por uma parelha de médicos: um jovem com uma barba rala, um bocado escorrido, e ainda a adoptar a pose de médico, e um outro mais pesadão, de bigode grisalho, já no segundo terço da vida, sem nenhuma pose de médico. Na verdade, o jovem esquálido é que me atendeu, o pesadão grisalho apenas supervisionou e ajudou. Apesar do meu estado, deu para perceber o bom relacionamento entre os dois e sobretudo entre o pesadão grisalho e as enfermeiras, informal e próximo, com chistes e trocadilhos constantes. Simpatizei com ele. Sem dúvida uma boa companhia para os copos. Cá para mim, deve ser o tipo que no grupo conta as melhores anedotas, o dínamo da festa, aquele cujo riso e forma de estar modela a atitude do grupo.Tenho a mania de ter sempre opinião sobre muita coisa que resulta apenas da necessidade de compreender e nada mais. Quando é de área que conheço, pode ser assertiva. Quando é de área que não conheço, é geralmente modalizada. No caso, como era o meu próprio diagnóstico e como não sou médico, foi obviamente modalizada. Expliquei o acidente e disse ao esquálido que aquilo me parecia ser distensão muscular, rotura de ligamentos ou coisa parecida e não fractura, tomando como exemplo a experiência de uma outra fractura antiga de um outro membro. Esta informação destinava-se a ajudar o esquálido a fazer o diagnóstico e não a alardear nenhuma opinião científica ou até empírica. O esquálido mandou-me fazer um raio X. Resultado: fractura. Ao comunicar-me a coisa, o esquálido não perdeu a oportunidade para fazer vincar a sua superioridade e disse-me com ar paternalista: «o senhor tem uma fractura y. Está a ver! Para alguma coisa nós estamos cá, estudámos e sabemos mais.» A que se seguiu a solução clínica para a coisa: imobilização com tala gessada.
Pensando no assunto, ainda fiz um flashback, tentando perceber o que levara o esquálido àquele remoque. Debalde. Não encontrei nenhuma boa razão. A não ser que ele esperava que eu apenas me queixasse de dores e deixasse o diagnóstico para ele. Mas aquele comentário era escusado, porque eu nunca pus em causa o douto saber do esquálido. O que disse foi que «me parecia». E como se viu até «me parecia mal». Isso deveria ser o bastante, para ele. É notável que mesmo numa relação assimétrica como são todas as relações médico/doente: eu estava doente e ele são, o esquálido tenha tido a necessidade de atirar a sua competência e o seu saber para cima de mim. Resta dizer ainda que não achei o esquálido mau médico e teve até vários aspectos positivos: explicou-me tudo com algum detalhe e foi globalmente simpático.
Entretanto, fiquei a saber, pelos jornais, que existe uma pós-graduação qualquer na área da saúde em que há a cadeira: Comportamento e relação Médico-Doente. Pelo sim, pelo não, eu mandaria o esquálido fazê-la...
11 de dezembro de 2008
Esbirros e juízes…
A minha mãe sofreu numa sexta-feira, véspera de um fim-de-semana prolongado, uma intervenção cirúrgica simples num conhecido hospital privado de Lisboa. Apesar de ser uma intervenção simples e com anestesia geral, saiu nesse mesmo dia com uma prescrição médica para o pós-operatório que se compunha de dois medicamentos. Um deles, porém, parece que estava esgotadíssimo – disseram-me na farmácia. Nem sequer valia a pena procurar! Como o médico deixou telemóvel, liguei para ele. Como não atendeu, deixei mensagem explicando a situação, pedindo que quando a ouvisse me ligasse de volta. Após o telefonema e à cautela, perguntei à minha mãe a idade do dito médico. Cinquenta e tal anos, diz ela. Contas de cabeça e pensando que o homem ainda pudesse ser uma daquelas abencerragens que acha que é Deus no Céu e o médico na Terra, telefonei para o fixo do hospital, explicando a situação e pedindo que contactassem o médico. Quem atendeu, uma daquelas recepcionistas-tipo, formatada, foi logo dizendo que não, que não podiam ligar para o «senhor professor», que não havia quem substituísse o «senhor professor», que só depois dos feriados e para «ir tentando» para o telemóvel do «senhor professor»... Percebi logo onde estava: a criatura nunca iria perceber que estava num hospital, não estava a aviar batatas na mercearia da esquina...
Dez minutos depois, o médico liga-me. Inteira-se do estado da minha mãe, faz um comentário de circunstância sobre o estado do stock do dito medicamento e prescreve um sucedâneo. Foi cordial, afável, disponível. Em nenhum momento achei que o homem se tenha dado ares. Muito pelo contrário. Senti sempre horizontalidade no trato e até mais, senti que ele me tratava como se fosse a parte forte da relação que na verdade sou, porque sou cliente e pago. Se, no caso, há alguém que tem forçosamente de agradar e de ser simpático é ele. E foi-o. Naturalmente, agradeci-lhe por ter ligado, sublinhando ainda por ter ligado prontamente!
Curiosamente, no caso, neste como noutros, os esbirros são muitas vezes piores do que os juízes. E a mocinha do atendimento revelou vários defeitos: 1.º Não ter dado nenhuma solução ao caso como deveria; era o Hospital que deveria providenciar o contacto com o médico ou em alternativa com outro médico: o doente é que não pode ficar sem prescrição durante três dias e/ou resolver por si a situação; a operação foi feita num hospital e paga ao hospital; 2.º Quando eu referi o «sotôr» - desconhecia até que o homem fosse professor – e ela retorquiu matraqueando insistentemente com o «senhor professor», não o deveria fazer; isso era inteiramente dispensável; aquilo não é um hospital universitário, não estamos na faculdade, ali quem está é o médico especialista, não é o professor universitário; 3.º Ao sub-repticiamente induzir que era eu que deveria ir tentando e não o médico que me deveria ligar.
Note-se que isto se passou uns milhares de euros depois. O Hospital é privado e dos melhores e mais conceituados da nossa praça e entre seguro e comparticipação do doente, uma intervenção em ambulatório de meia hora custou alguns milhares.
Andou muitíssimo bem o médico que ligou prontamente, foi cordial e amável. Andou muitíssimo mal o Hospital pela mão da criatura do telefone... E andou mal a minha mãe que por qualquer ninharia se atira, como o gato ao bofe, aos hospitais públicos, onde, pelo menos directamente quase não paga, manifestando, ao contrário, uma complacência quase absoluta com os hospitais privados onde paga muito e bem...
Dez minutos depois, o médico liga-me. Inteira-se do estado da minha mãe, faz um comentário de circunstância sobre o estado do stock do dito medicamento e prescreve um sucedâneo. Foi cordial, afável, disponível. Em nenhum momento achei que o homem se tenha dado ares. Muito pelo contrário. Senti sempre horizontalidade no trato e até mais, senti que ele me tratava como se fosse a parte forte da relação que na verdade sou, porque sou cliente e pago. Se, no caso, há alguém que tem forçosamente de agradar e de ser simpático é ele. E foi-o. Naturalmente, agradeci-lhe por ter ligado, sublinhando ainda por ter ligado prontamente!
Curiosamente, no caso, neste como noutros, os esbirros são muitas vezes piores do que os juízes. E a mocinha do atendimento revelou vários defeitos: 1.º Não ter dado nenhuma solução ao caso como deveria; era o Hospital que deveria providenciar o contacto com o médico ou em alternativa com outro médico: o doente é que não pode ficar sem prescrição durante três dias e/ou resolver por si a situação; a operação foi feita num hospital e paga ao hospital; 2.º Quando eu referi o «sotôr» - desconhecia até que o homem fosse professor – e ela retorquiu matraqueando insistentemente com o «senhor professor», não o deveria fazer; isso era inteiramente dispensável; aquilo não é um hospital universitário, não estamos na faculdade, ali quem está é o médico especialista, não é o professor universitário; 3.º Ao sub-repticiamente induzir que era eu que deveria ir tentando e não o médico que me deveria ligar.
Note-se que isto se passou uns milhares de euros depois. O Hospital é privado e dos melhores e mais conceituados da nossa praça e entre seguro e comparticipação do doente, uma intervenção em ambulatório de meia hora custou alguns milhares.
Andou muitíssimo bem o médico que ligou prontamente, foi cordial e amável. Andou muitíssimo mal o Hospital pela mão da criatura do telefone... E andou mal a minha mãe que por qualquer ninharia se atira, como o gato ao bofe, aos hospitais públicos, onde, pelo menos directamente quase não paga, manifestando, ao contrário, uma complacência quase absoluta com os hospitais privados onde paga muito e bem...



