17 de agosto de 2009

Crónica hospitalar e de costumes VI

Há que pôr termo à saga do estúpido acidente doméstico no qual parti um braço que mais parece uma telenovela mexicana tantos os episódios e micro-episódios aqui relatados. Mas ainda podia durar que há sempre muito para dizer acerca destas coisas. A última referência é para elogiar o sistema informático do Hospital de S. José. Já o critiquei por não ter instalada a funcionalidade que permite emitir atestados médicos, agora vou elogiá-lo por ser económico e amigo do ambiente. Fiquei espantado quando, na segunda ida à urgência, em lugar do velhinho raio X, me entregaram um CD-R com o dito. O qual pude ver em casa e tudo, já que vinha com um programinha de visualização. Um must... É claro que depois, na excelência da medicina privada, o médico não tinha PC no consultório. Mas como é um homem desenrascado, foi até ao balcão de atendimento, desalojou provisoriamente a funcionária e viu aquilo.
That's all folks! Uf...

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1 de agosto de 2009

Crónica hospitalar e de costumes V

A saga do estúpido acidente doméstico no qual parti um braço teve vários micro-episódios. Após o relatado atrás (II), em que o Técnico de Medicina não quis fazer o Raio X de confirmação, não fiquei obviamente descansado. Há várias maneiras de matar o bicho e outras tantas para cozinhar bacalhau, como se sabe. Pelo que, além de não ter tomado o sedativo que a criatura me prescreveu, resolvi fazer o check up da coisa, recorrendo à medicina privada. Consegui marcar para o meu ortopedista para daí a dois dias. E ala para lá. Acontece que o mundo é realmente pequeno e Portugal uma das suas aldeias mais pequenas e o meu ortopedista é médico no Hospital de S. Lázaro que é uma extensão do de S. José, além de também fazer urgências naquele. Conhecia, pois, o esquálido, o pesadão de bigode e o Técnico, pelo que tive oportunidade de checkar também as minhas impressões pessoais sobre aquele trio. Os médicos, como se sabe, comportam-se como uma matilha quando um deles é atacado publicamente. Mas em privado adoram comentar-se e desdizer os diagnósticos uns dos outros. Deus só há um, aquele que temos ali na nossa frente. O panteão raramente comporta mais… Achou que eu estava bem entregue ao esquálido que qualificou de jovem promissor e paciente para com os doentes. E achou que o Técnico era realmente – cito de memória – «um colega que lá temos que mal o doente se senta, já se está a levantar. É assim!».
O meu ortopedista oficial é um indivíduo de meia-idade, já grisalho, entroncado e não muito alto, no qual ainda se percebem as raízes físicas do típico homem português de antanho. Gosta de fazer de Deus no quotidiano, ou seja, gosta do que faz e fá-lo bem. É um indivíduo horizontal no trato com os doentes, no qual deposito algum crédito de confiança mercê da experiência que lhe reconheço e de diagnósticos antigos nos quais mostrou sempre proficiência. É um homem directo, objectivo, informal no trato e com bastante capacidade de leitura das situações e das pessoas que tem pela frente. Em boa hora lá fui. Primeiro porque nem foi preciso dizer nada, já que ele me disse: «Vou querer que faça um segundo raio X para ver se isso está tudo alinhado. Essa é a minha maior preocupação!». Gosto sempre quando eles usam os possessivos (a minha preocupação), tomando para eles o problema que não é seu. Sentimo-nos logo entregues e delegamos a coisa. A consulta foi a uma sexta e ele disse-me: «Faço banco no domingo em S. José. Vá lá ter comigo, que fazemos isso». Como sou dos que criticam a norma mas cumpro-a a maior parte das vezes, ainda lhe disse: «Mas não será uma urgência!?». E ele: «Não se preocupe. Vai lá, diz que lhe dói o braço. Eles vêem o gesso e mandam-no logo para a ortopedia. E lá, pede para falar comigo». Dito e feito. Fiz o raio X de controle e estava tudo ok. E, mais-valia fundamental, as dicas que ele me deu. Disse-me que era essencial que mexesse o mais que pudesse o braço imobilizado para exercitar a articulação do ombro, que era, segundo ele, a que me provocava as dores musculares que me levaram no segundo dia à urgência: «O Sr. em casa retira o apoio de braço e mexa com todo o à-vontade o braço: a zona fracturada está imobilizada, pelo que não tem com que se preocupar». Resultado: nunca mais tive dores musculares.
To be continued

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31 de julho de 2009

Crónica hospitalar e de costumes IV

A saga do estúpido acidente doméstico no qual parti um braço teve vários micro-episódios. No final da primeira consulta na urgência, e estando naturalmente impossibilitado para trabalhar, pedi o competente atestado ao esquálido que me atendeu. Pensando que a coisa estava em Simplex, já estava a ver sair da impressora o papel preenchido, prontinho para ser assinado. Puro engano! Parece que o programa informático do Hospital de S. José tem essa funcionalidade prevista há dois anos… mas ainda não foi implementada. O esquálido diligentemente mostrou-me mesmo o botão informático da dita. Lá tive, pois, no dia seguinte, cheio de dores e sem ter pregado olho, de me arrastar até ao médico de família, que aproveitei para conhecer, pedir por amor de Deus ao dito que me atendesse e me desse o tal papel.
A situação, como se vê, é cretina e caricata, não se percebendo sequer o porquê de não estar resolvida. Será que o truculento Correia de Campos ou Ana Jorge, com aquele arzinho entre o snobe e o negligé, tiveram/têm conhecimento disto?!
To be continued

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28 de julho de 2009

Crónica hospitalar e de costumes III

O episódio das Crónicas Hospitalares e de Costumes relatado atrás não acabou ali. Aguardei no corredor, já com os doentes a amontoarem-se e a aparecerem as primeiras queixas pelo tempo de espera, quando chega a enfermeira. Uma mulher alta, de cabelos negros ou castanhos-escuros, com um rosto ainda bonito mas em que o corpo acusava já o passar dos anos. Foi próxima e simpática mas sem aquele paternalismo ou infantilização, muito característicos do pessoal hospitalar que não os médicos. Ao ler a receita do Técnico, constatei que ambos os fármacos eram injectáveis, acabando um deles em «an» ou «am», o que logo me soou a sedativo. Perguntei à enfermeira de rosto bonito, o que era aquilo, ao que ela me disse que um era um relaxante muscular e o outro era realmente um sedativo. Disse-lhe peremptoriamente e de modo a não permitir qualquer réplica: «levo o primeiro e não levo o segundo». Ela nem tugiu, nem mugiu. Ora, o Técnico deu-me o primeiro para as dores e o segundo deve ter sido por eu lhe ter dito que não tinha dormido nada na noite anterior, já que não estava particularmente nervoso ou ansioso. Enervado estava sim, no dia anterior, quando fiz a fractura. A facilidade com que os médicos prescrevem este tipo de medicamentos é coisa que mereceria reflexão...
Seguiu-se o aliviar da tala. Tive de ser eu a dar-lhe uma ajuda na decifração da letra encadeada do Técnico e, antevendo dificuldades, ela disse-me: «ai, ai, como é que eu lhe vou fazer isso?» Devo dizer que este episódio foi o mais doloroso de todo este processo, já que tiveram de me levantar o braço uns 10º ou 20º do ângulo recto em que estava. Já só me vi rodeado de três enfermeiros que me diziam que tinha os músculos completamente tensos e eu só dizia para deixarem aquilo tal como estava. Arrependi-me deveras de me ter queixado, mas lá me conseguiram colocar umas mechas suplementares de algodão que me aliviaram umas horas mas à noite estava quase na mesma. Lá pus eu, adicionalmente, com a ajuda de espátulas de madeira, colheres de pau e o que fosse desde algodão a rodelas de retirar maquilhagem. Valeu tudo. Mas o alívio foi curto. Em pouco tempo, aquilo ganhava cama e continuava a magoar-me de sobremaneira. Tive, então de agir por conta própria e fracturei deliberadamente o gesso naquela parte. E em boa hora o fiz, pois só assim consegui alívio daquele garrote. Quando, semanas após, no final do processo de consolidação, retirei o gesso, tinha uma enorme crosta de sangue e um valente hematoma. A enfermeira que o removeu disse-me mesmo: «Como o senhor tem isto! Não lhe doía?! E eu: «Claro que sim, daí ter fracturado o gesso nessa parte». E ela: «Foi o que lhe valeu, já que isso podia ter chegado ao osso». Pois!
É inaceitável que o Técnico de Medicina prescreva medicamentos sem explicar aos doentes o que são e para que servem. Já que o Técnico, embora pelos meus critérios não seja médico, também não é veterinário... Tal como é inaceitável que o Técnico tenha desvalorizado as queixas de dor no pulso, já que dali poderiam advir males maiores não fora aquele meu expediente...
To be continued

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27 de julho de 2009

Crónica hospitalar e de costumes II

Mais um episódio do estúpido acidente doméstico no qual parti um braço. Como já se disse fui engessado: uma tala em meia-cana coberta por uma ligadura e assim andei 21 – para mim – longos dias. Como tenho os pulsos finos e um bocado ossudos, a tala ficou a magoar-me, o que só dei conta algumas horas depois. Em conversa com familiares, amigos e conhecidos, cada um me foi alertando para um ou outro aspecto da coisa. Já se sabe que de médico e de louco todos temos um pouco... E ainda bem, pelo menos em relação à primeira parte da premissa. Em concreto, a minha santa mãe alertou-me para o facto de eu não ter feito uma radiografia após a colocação do gesso, asseverando-me que o devia ter feito para ver se o braço tinha ficado na posição certa. Dado que se consolidasse mal, o caso seria depois muito mais complicado. Andei na net, à esquerda, a averiguar se aquele era um procedimento médico obrigatório mas os resultados não foram conclusivos. Assim sendo, com o incómodo no pulso e com a história do raio X pós-gesso a bailar-me no espírito, no dia seguinte voltei à urgência.
Mesmos passos e eis-me de novo na ortopedia. Desta vez, porém, tive azar. Não dei nem com o esquálido, nem com o pesadão de bigode. E fui atendido por um outro tipo. Este, porém, não era médico. Seria seguramente licenciado em Medicina. Médico não era! Já que para isso é necessária a vertente humana, coisa que de todo lhe escapava. Chamemos-lhe, pois, Técnico de Medicina, que é o que lhe assenta melhor. Tenho a ideia de ser um tipo de meia-idade, cabelo curto já grisalho, rosto redondo, olhos pequenos, de gestos despachados e voz igualmente despachada. Creio que nem sequer me fitou nos olhos e mal ouviu o que lhe disse. Uma máquina afinada de passar receitas. Após me ter queixado de dores no braço e no pulso e de ter aventado timidamente a hipótese de um segundo raio X, o Técnico prescreveu-me dois medicamentos, não me explicando sequer o que eram e rejeitou liminarmente e com algum desdém o segundo raio X. Sobre a dor no pulso, nada disse. Tive mesmo de o alertar novamente para isso, tendo ele então escrito a despachar numa letra cursiva e encadeada: «aliviar tala gessada». Lá fui para o corredor, aguardando ser atendido pela enfermeira. Como a sala era em frente e eu estive à espera bem perto de meia hora, pude ver que o Técnico – seguramente uma referência para os gestores do Hospital de S. José mas só para esses – aviou ao mesmo ritmo mais uns quantos doentes. Velhos e novos, em ambulatório ou internados, pelo seu próprio pé, em cadeiras de rodas ou em maca.

O homem é mesmo uma máquina.
To be continued

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22 de julho de 2009

Crónica de costumes e hospitalar I

Há uns meses parti um braço num estúpido acidente doméstico. Estúpido, como estúpidos são todos os acidentes. Com dores que anteviam qualquer coisa de mais grave, fui à urgência do Hospital de S. José. Papéis, triagem e sou conduzido à ortopedia. Fui, então, atendido por uma parelha de médicos: um jovem com uma barba rala, um bocado escorrido, e ainda a adoptar a pose de médico, e um outro mais pesadão, de bigode grisalho, já no segundo terço da vida, sem nenhuma pose de médico. Na verdade, o jovem esquálido é que me atendeu, o pesadão grisalho apenas supervisionou e ajudou. Apesar do meu estado, deu para perceber o bom relacionamento entre os dois e sobretudo entre o pesadão grisalho e as enfermeiras, informal e próximo, com chistes e trocadilhos constantes. Simpatizei com ele. Sem dúvida uma boa companhia para os copos. Cá para mim, deve ser o tipo que no grupo conta as melhores anedotas, o dínamo da festa, aquele cujo riso e forma de estar modela a atitude do grupo.
Tenho a mania de ter sempre opinião sobre muita coisa que resulta apenas da necessidade de compreender e nada mais. Quando é de área que conheço, pode ser assertiva. Quando é de área que não conheço, é geralmente modalizada. No caso, como era o meu próprio diagnóstico e como não sou médico, foi obviamente modalizada. Expliquei o acidente e disse ao esquálido que aquilo me parecia ser distensão muscular, rotura de ligamentos ou coisa parecida e não fractura, tomando como exemplo a experiência de uma outra fractura antiga de um outro membro. Esta informação destinava-se a ajudar o esquálido a fazer o diagnóstico e não a alardear nenhuma opinião científica ou até empírica. O esquálido mandou-me fazer um raio X. Resultado: fractura. Ao comunicar-me a coisa, o esquálido não perdeu a oportunidade para fazer vincar a sua superioridade e disse-me com ar paternalista: «o senhor tem uma fractura y. Está a ver! Para alguma coisa nós estamos cá, estudámos e sabemos mais.» A que se seguiu a solução clínica para a coisa: imobilização com tala gessada.
Pensando no assunto, ainda fiz um flashback, tentando perceber o que levara o esquálido àquele remoque. Debalde. Não encontrei nenhuma boa razão. A não ser que ele esperava que eu apenas me queixasse de dores e deixasse o diagnóstico para ele. Mas aquele comentário era escusado, porque eu nunca pus em causa o douto saber do esquálido. O que disse foi que «me parecia». E como se viu até «me parecia mal». Isso deveria ser o bastante, para ele. É notável que mesmo numa relação assimétrica como são todas as relações médico/doente: eu estava doente e ele são, o esquálido tenha tido a necessidade de atirar a sua competência e o seu saber para cima de mim. Resta dizer ainda que não achei o esquálido mau médico e teve até vários aspectos positivos: explicou-me tudo com algum detalhe e foi globalmente simpático.
Entretanto, fiquei a saber, pelos jornais, que existe uma pós-graduação qualquer na área da saúde em que há a cadeira: Comportamento e relação Médico-Doente. Pelo sim, pelo não, eu mandaria o esquálido fazê-la...

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17 de novembro de 2007

Mais excelência?

O meu cartão multibanco (MB) de combate, aquele que é usado no dia a dia para as pequenas despesas, deixou de funcionar na rede do meu banco e nalguns terminais de lojas. Funcionava perfeitamente nas máquinas da rede SIBS. Fui a um balcão que me fica em caminho para resolver o problema. Para mal dos meus pecados, fui atendido por uma funcionária incompetente. Estava lá também uma colega, mas infelizmente tocou-me mais uma vez em sorte aquela que já conheço de outras andanças. E não gosto. É uma criatura de meia-idade. Terá talvez uns 55 anos. Pequena e anafada. Rosto redondo, algo vermelhusco, cabelo mal tratado e mal penteado. Uns óculos de meia-cana com aquele horroroso penduricalho que se usa ao pescoço para que não caiam completavam o quadro. É uma pessoa formalmente atenciosa, formalmente educada, e mesmo com alguns ademanes e maneirismos de uma artificial e antiquada afectação. Esses são, porém, os seus defeitos mais benignos. O pior é que é ineficaz. E tem um defeito maior, para mim capital, é estupidamente opiniosa. Fala do que não sabe e não tem ponta de sentido crítico. Além disso, defende o banco, mesmo as maiores cretinices, com a irracionalidade do cão de fila. É bem intencionada mas é burra. E não sabe sequer o que é um cliente.
Exponho a questão e começa o folclore. A criatura detém-se largos segundos a observar o cartão, à contraluz, à luz, vira e revira, com um olhar meio bovino mas a dar-se ares de perito forense em bocados de plástico. E remata em jeito de diagnóstico absoluto da perícia: «a banda está riscada». Vislumbrei o escopo último do comentário. A criatura estava a tentar imputar-me as culpas pela anomalia do cartão. Quem sabe até se eventualmente mesmo a tentar que eu arcasse com os custos. Olho para o cartão para, enfim, tentar perceber se a criatura tinha razão. E não tinha. Digo-lhe que não, que não vejo nada. De raça teimosa, a dita insiste: «Então não vê, nesta ponta?». E eu: «Não vejo absolutamente nada de diferente entre uma e a outra extremidade da banda!». Com alguma paciência argumentativa, digo à criatura que o cartão tem poucas semanas e umas escassas - vá lá - dezenas de movimentos. Teimosíssima, a criatura não se demove e volta a carga de forma quadrúpede. Que isso não importava, disse. Que o problema não estava em mim mas nos estabelecimentos comerciais que têm as máquinas MB e não as mandam limpar, porque a manutenção é cara e não sei que mais. Decidi, então, expor ao seu olhar forense os vários cartões que trago na carteira, todos eles com mais riscos na banda magnética do que aquele que devolvi. Um deles mesmo, de acesso a uma garagem, de aspecto surrado resultante dos maus tratos de 7 anos ininterruptos de carteira e que ainda hoje funciona. A criatura decidiu não insistir mais, passando à fase da resolução do problema. Exactamente aquela por onde devia ter começado. Sacou de um impresso e pediu-me que o preenchesse. E no final, lá estava a sacrossanta frase: «autorizo o débito na conta da importância referente à substituição do cartão» ou paleio equivalente. Não é pela importância, que é despicienda, mas sim pela atitude da criatura e do banco que tudo aproveita para esbulhar. Digo-lhe então com ar suficientemente peremptório: «Olhe que eu não vou pagar este cartão!». E ela: «Não paga nada». E eu: «Não é isso que diz na frase final onde eu depois vou assinar». E ela: «Mas tem um quadradinho para optar 'Sim' ou 'Não'». E eu: «Não tem absolutamente nada». Olhando para o impresso, faz um trejeito com o olhar como quem diz: «Burros! Que não puseram o quadradinho!». E nunca: «Olha! Não reparei que não tinha o quadradinho!». E diz-me: «Então coloque ‘Não autorizo’ na frase». E lá foi aquilo com um «Não» manuscrito. Ou seja: «NÃO autorizo o débito na conta da importância referente à substituição do cartão»?!?!?! Fantástico! Podia ter-me aconselhado simplesmente a riscar a frase, mas nem sequer isso lhe ditou a inteligência.
E é esta a excelência que nos tentam impingir…

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3 de novembro de 2007

Onde está a excelência?

Estou cansado de levar com a ideia de que o Privado é bom e o Público é mau. Mais: que o Privado é de excelência e o Público é mau. Olho, perscruto, e não encontro a tal excelência. Devo ter azar. Faço natação num organismo público. As mentes que governam a piscina decidiram este ano recorrer ao outsourcing. Ou, como agora também se diz, à externalização. Já entregue a exploração ao sector privado, pedi um horário. Deram-me uma coisa mal amanhada a que chamaram horário. Tive, desde logo, dificuldade em consultar e interpretar o dito horário. Questionada, a empresa teve as mesmas dificuldades. O problema podia ser meu, mas não era. Além das insuficiências de concepção, havia um horário incorrecto. Assinalei o facto há semanas. Mas lá continua hoje, ostentando o erro. A fotocópia era ranhosa e como aquilo foi feito a cores e tem sombreados, a fotocópia a preto e branco é um amontoado informe e ininteligível. No momento de pagar, constatei que não tinham Multibanco. Pois, sim senhor, que eu tinha razão, mas que ainda não estava instalado. Passo cheque. Resultado da arteroesclerose precoce ou da falta de hábito – penso que ainda não do analfabetismo funcional – escrevo o montante na linha do «à ordem» e a entidade na linha da «quantia». Não me apercebi, quem recebeu também não. O cheque foi para o banco e voltou para trás. Falamos de um cheque de pouco mais de 100 euros. Será que o banco não tem o meu número de telefone para confirmar se passei ou não aquele cheque?! Passei um novo. E ainda assisti, pasmado, ao rapaz da tal empresa passar-me um recibo manual, tendo um PC e uma impressora à frente. Ah! Mas utilizou a calculadora do PC para fazer as contas...
Onde está a excelência da empresa que gere a piscina e já agora a excelência do meu banco. Dão-se alvíssaras.

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28 de outubro de 2007

Pobrezas

Há a pobreza material e há a pobreza de espírito. Por vezes, andam juntas.
Há uns meses, a pessoa que assegurava o expediente geral e algum secretariado do meu departamento reformou-se. Tinha 59 anos e o tempo de serviço requerido. Foi à vida e fez bem. Os tempos não correm de feição para quem trabalha na Administração Pública. Pouco depois, consegui, após férreas negociações internas, uma pessoa com pouco mais de 40 anos que já trabalhava na organização ao abrigo de um programa de colocação de desempregados promovido pelo Centro de Emprego. Na diferença de idades, vislumbrei eu uma maior competência no manejo com as novas tecnologias. Enganei-me rotundamente. A pessoa em questão tem o 12.º ano e havia frequentado o primeiro ano de um curso superior. Ao que sei, já havia desempenhado funções administrativas num negócio familiar. Ignoro se teve outras experiências. Sei que está a receber subsídio de desemprego há bastante tempo. Na organização, não irá ficar. E nos primeiros meses do próximo ano irá mesmo perder, por ter atingido o tempo limite de concessão daquele benefício, o subsídio de desemprego. Abaixo disso, só há – ao que sei – o rendimento social de reinserção. O ponto mais baixo da escala da pobreza, se assim lhe quisermos chamar. Entretanto, contraiu um empréstimo bancário para comprar a casa onde mora. O preço foi baixo porque ela já habitava a casa e antes dela a avó com quem sempre viveu. De onde, tem hoje mais responsabilidades do que tinha. Além de ter de sobreviver, terá de pagar a prestação do empréstimo ao banco que é superior à renda que pagava.
Todas as semanas, à quarta-feira, ela vai, por obrigatoriedade legal, ao Centro de Emprego creio que para procurar alguns dos empregos disponíveis. Vai lá uma hora ou duas e falta o dia todo. Um dia fiz-lhe menção disso. E ela disse-me logo que aquele era um direito que tinha, regulado não sei por que portaria. Perguntou-me se queria ver a portaria. Disse-lhe que não. Creio que não deverá ser bem assim, mas não curei de averiguar melhor. A atitude chega-me e sobeja-me. Quero lá saber do enquadramento normativo da coisa. Ela não percebeu nem uma atitude, nem outra. Além da manha patente em pequenos truques, de que aquele é apenas um exemplo, não pensa, não sabe priorizar tarefas, não tem ritmo de trabalho, executa mal, é lenta, não tem consciência do que sabe e do que não sabe, não conhece, nem se adapta à cultura da organização e do meu departamento em particular. Enfim, é uma administrativa má, nem sequer medíocre chega a ser. Acontece, porém, que, apesar de tudo, tenho pena dela. Aquela pena que se tem pelos pobres de espírito e porque me preocupa o day after. Ou seja, o dia em que ela deixar de receber subsídio de desemprego e vou-me procurando inteirar da evolução da situação. Tentei mesmo enquadrá-la e chamá-la um pouco à realidade. Procurei – agora já não procuro – dar-lhe a entender que em empregos como funcionária administrativa há mais oferta do que procura. Isto para não lhe dizer de chofre que ela nunca será uma administrativa capaz. Ela procura fugir à conversa e um dia senti mesmo que estava a ser intrusivo e inconveniente.
Acontece que há umas semanas, ela foi a uma entrevista profissional. Era para empregada de peixaria de um conhecido supermercado de Lisboa. O vencimento-base era de cerca de 700 euros. Trabalharia por turnos, sendo os da noite mais bem pagos, o que acrescia ao vencimento. Teria um seguro de saúde. Rejeitou porque acha – acha! – que não aguentaria o cheiro da peixaria.
Acontece ainda que há uns meses, outra oportunidade lhe havia surgido, agora para um lar de idosos. Rejeitou, segundo me disse, porque não conseguia lidar com o envelhecimento, depois da experiência traumática que teve com a avó.
É também disto que se fala quando se fala de pobreza.

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21 de outubro de 2007

A lei do rolha

Uso diariamente os transportes públicos. Um dia destes, excepcionalmente – o que acontece uma ou duas vezes por mês – precisei de levar o carro. Quando acciono o comando do portão da garagem, deparo-me com um carro estacionado, bloqueando a saída. Após um solo de alguns minutos de buzina, com o consequente estardalhaço na vizinhança, volto a casa e ligo para a PSP. Quem me atendeu, referiu ter tomado nota da ocorrência e que iria chamar o reboque. Perguntei, então, quanto tempo demoraria. Pergunta óbvia de quem sai de uma garagem às 9 e pouco da manhã. Que não sabia, diz-se do lado de lá. Perante o rolha, decido avançar com uma proposta pró-activa e pergunto se seria mais de meia hora. Do lado de lá, o rolha dá um passo em frente e arrisca também um «provavelmente, sim». Aquele «provavelmente, sim» soou-me como «obviamente, sim». Como da única vez que tive um acidente, no qual fui culpado, apesar de a situação que lhe deu origem ter sido meses depois corrigida pela Junta Autónoma de Estradas, a PSP demorou duas horas para «tomar conta da ocorrência», decidi, logo ali, que iria de transportes públicos. E digo ao rolha que é importante saber quanto demora o reboque para poder programar o meu dia. O rolha diz-me, então: «Se o denunciante – gosto da palavra – não estiver no local, o veículo não será rebocado, mas apenas autuado». Perante aquilo, sai-me um: «Como calcula, é-me indiferente que o veículo seja autuado ou rebocado, o que me interessa é que ele saia de onde está, em tempo útil». Impassível, mas apesar de tudo com fair-play, refere-me, a seguir, esta coisa espantosa. Coisa aliás muito comum a quem mexe com a lei - leia-se polícias, magistrados, juristas - «só lhe estou a dizer o que diz a lei». É espantosa a capacidade desta gente para se desculpar com a lei. A lei inibe-os de pensar. Dispensa-os dessa atitude. Não usam o bom-senso, apenas a lei. As costas largas da lei tudo acolhe e tudo desculpa. Aliás, ainda há umas semanas, num Prós e Contras, dedicado ao caso Esmeralda, se percebeu isso pela boca dos dois juízes presentes que asseguraram o contraditório: António Martins, o presidente deles, e uma tal Carla Oliveira, que não conhecia. Encheram a boca com a lei, dispensando o bom-senso. E a atitude de um e de outro - o primeiro mais polido pela tarimba dos media e a segunda sem polimento nenhum – causou-me mesmo alguma repulsa, mais até pela linguagem corporal do que pelas palavras. A primeira, aliás, não batia com as segundas. Era mais agressiva. Se tirasse o som do televisor, o que aqueles corpos diziam não conferia com as palavras. Lembro-me de ter sentido a minha cidadania menos protegida por aqueles dois e de pensar que não confiava em nenhum deles para julgar um caso em que estivesse envolvido. No percurso que depois fiz, fui pensando no rolha e achando que, no mínimo, ele, mesmo com a lei, devia ter usado a cabeça. E devia-me ter perguntado se eu iria esperar ou não. É que se eu esperasse, mandava o polícia e o reboque. E se eu não esperasse, mandava só o polícia, com isso poupando-se tempo e recursos. Se a lei diz o que ele diz que diz, bastava ir lá um polícia, quando pudesse - claro! -, autuar o carro, se por acaso - claro! - ele ainda lá estivesse. O caso ainda é que depois passei de autocarro por uma esquadra, que fica a 100 metros de minha casa, onde se viam vários polícias e até mesmo um carro estacionado com dois agentes lá dentro. Pelo menos para a multa, em dez minutos, teriam resolvido o caso. E pensei na estupidez da situação. E nem sequer falo da tal lei que não curei de averiguar. Curiosamente, é ao abrigo dela, ou de uma parente dela, que vejo todos os dias carros bloqueados nos passeios só por não pagarem o estacionamento. Não! Não é por bloquearem a saída a ninguém, é só por não pagarem o dinheiro que a EMEL, a Spark, a CML ou o que for se lembraram de extorquir…

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30 de setembro de 2007

O bricabraque do fisco

Muito se fez no fisco nos últimos anos. Ainda assim coexistem duas realidades diferentes. Sobretudo ao nível das pessoas e das instalações. As práticas, os procedimentos, e as tecnologias a eles associadas, esses claramente melhoraram. Aqui há uns meses tive de ir à minha repartição de Finanças. Desde que moro nesta morada – há cerca de 4 anos – nunca lá havia ido. Uma ou outra situação tem sido tratada pelo elemento feminino, que se encarrega prioritariamente desses assuntos, de onde não conhecia o espaço. E foi uma experiência interessante. A criatura que primeiro me atendeu era um funcionário dos antigos mas polido e cortês. O polimento pode ter sido recente ou já ser de seu natural. Não consegui perceber. Particularidade: o homem via mal, pelo que ostentava uma gigantesca lupa ao peito. Pouco depois, fui à tesouraria, situada no rés-do-chão do prédio. Um prédio dos anos setenta no centro de Lisboa. Foi moderno, em tempos, hoje ostenta sinais visíveis de decadência. Como tive de esperar uns bons 20 minutos, deu para tudo. E fui observando o que se passava à minha volta. Desconto os contribuintes e foco-me nos funcionários e nas instalações. A tesouraria é uma sala ampla onde já trabalharam provavelmente mais de uma dezena de pessoas, antes de as máquinas substituírem as pessoas. Estavam lá duas. Desses tempos gloriosos, das velhas repartições, - só o nome já tem peso - resta o mobiliário e alguns adereços. O profissionalismo, que chegou aos procedimentos e à atitude das pessoas com os cidadãos, através de cursos de formação mais ou menos hormonais, parou aí. Não chegou às instalações, nem à atitude das pessoas no trabalho. E assim, aquilo era uma espécie de bricabraque, com objectos de toda a sorte. Num dos guichets, vi uma bola com cabelo azul, presumo que um recuerdo de péssimo gosto do Belenenses. Num outro, uma carta de jogar com a cara do funcionário titular do guichet bem no meio dos naipes. Numa parede, um calendário com uma paisagem de uma empresa metalúrgica. Semeados pelas paredes, vários outros. Uma paisagem, duas rosas, dois cães, calendários que já foram calendários, noutras eras... Mas que, depois de retiradas as folhas, e dada a beleza intrínseca dos motivos, lá foram ficando... Uns curiosíssimos arquivadores metálicos cor de tijolo e, por cima deles, umas jarras ou vasos de flores plásticas, decrépitas, com pelo menos 20 anos. É que nem as plásticas conservam o viço tanto tempo! Noutro ponto da sala, uma miniatura de um barco, um postal com um desenho de um bebé sorridente dizendo: «Eu sou optimista». Lembro-me bem daqueles posters, com 20 anos ou mais. A um canto, várias ventoinhas decrépitas, de antes do embaratecimento dos electrodomésticos, coexistindo com uns aquecedores a óleo, esses sim recentes, mas de linha branca, cada um de sua nação. Fotos de família, com e sem moldura, uma colada nos vidros. Vidros, aliás, aos quais a diligência do pessoal de limpeza – decerto provindo de um qualquer outsourcing – não chegou para remover restos de cola. Um ecrã moderno ia desfiando os números. Quando chegou à minha vez, pedi um impresso para adquirir o selo do carro. Ao que a funcionária me respondeu condescendente – com um ar de quem diz: «que burro, não sabes que isto está tudo informatizado!» - que já não era preciso. Recitei o número de contribuinte e logo a criatura me perguntou se era proprietário do veículo com a matrícula Y. Digo que sim, pago com MB e ela diz-me que irei esperar 15 dias – por acaso demorou um mês – pelo envio do dístico pelo correio. O mundo do fisco está, de facto, diferente, mas os resquícios do velho mundo ainda lá estão…

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4 de setembro de 2007

A culpa e o medo

Nas minhas férias deste ano, numa vila tradicional, de casas térreas e brancas, este ano morreu alguém. Duas casas adiante da minha. Tinha trinta e tantos anos. Estava a ver televisão com a família. Sofreu um ataque cardíaco fulminante. Não sei se o corpo foi cremado ou não, mas sei que houve dois dias de velório e um de funeral. Sempre que saía à rua, para ir ao café, para ir para a praia, para ir jantar, ou o que fosse, passava pela casa do morto, pela capela, via os rostos da família, dos amigos, surpreendia restos de conversas. E era-me sempre um pouco obsceno sair com aquele cenário ali tão perto. Há uma certa solidariedade interior na dor que nos obriga a partilhar, ainda que momentaneamente, aquela tristeza. Um dia chegará, em que alguém por mim ou pelos meus sentirá o mesmo. Penso eu, tentando apaziguar-me. O tempo e a vida não param, penso também. Mas a situação continua a soar-me obscena. E escrevo, porventura para exorcizar a culpa e o medo.

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27 de maio de 2007

Mais um esbulho legal: «miaus» sem recibo

Ontem fui ao veterinário com o gato da mãe. Quinze minutos, três injecções, uns medicamentos, um saco de comida: uma daquelas mixórdias ensacadas. Supostamente previne infecções urinárias e doenças associadas. Parece que os gatos castrados são mais atreitos a este tipo de complicações. O gato castrado, sou eu que digo, isto para não dizer capado. Para a minha mãe, trata-se de um gato preparado. Acho a expressão deliciosa! Preparado para quê?! Acho que o bicho não está é já preparado para mais nada! Voltando à mixórdia, como sou do tempo em que os gatos comiam peixe cozido e frito, acho tudo isto uma esquisitice. Por junto, a coisa ficou por 100 euros, certos, o que mostra bem o rigor das contas do doutor. Já em casa, dou uma vista de olhos aos medicamentos e à mixórdia. Nada de preços nas embalagens! Interrogo-me sobre se isto é legal?! Perguntei pelo recibo, só mesmo para ver, por curiosidade, quanto custou o quê. Diz-me a minha mãe: «ele não passou recibo». Eu: «então e não pediste?». Ela: «eles nunca passam!». E isto foi dito com a assertividade das sentenças sem recurso. Parece, portanto, ser prática normal dos veterinários, pelo menos dos 2 ou 3 a que a minha mãe já foi. O dito, com o qual me cruzei enquanto carregava o bichano, era uma criatura afável, urbana e sociável, de meia-idade, há muito habituado a lidar com os bichos chaperon de velhos e novos da cidade. Surpreendi-lhe mesmo algumas expressões retiradas das melhores selectas sobre a arte de ser veterinário urbano: «vamos lá ver a fera». A seguir, claro, faço a minha prédica cívica à minha mãe. Digo-lhe de chofre: «tens consciência que o homem nos roubou, a ti e a todos nós, mais de 20 euros que é o valor do IVA, não tens?!». Ela registou, mas não ficou lá muito convencida. Ladrões são os ratoneiros do metropolitano, os que roubam carteiras, não estes! É triste mas é esta a mentalidade reinante e vai demorar pelo menos mais duas gerações a mudar isto. Estou naturalmente inteiramente disponível para informar as Finanças da Pólis sobre quem é o veterinário. Aliás, fá-lo-ei sem qualquer escrúpulo de delação. Antes com a consciência de ter feito um acto cívico que, a prazo, contribuirá para melhorar a vida da Pólis.

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7 de março de 2007

Parabéns

Hoje ao final da tarde viajei de metropolitano. Um trajecto curto, mas com duas viagens. Numa delas, viajei sentado. À minha frente ia uma jovem. Não teria mais de 20 e poucos anos. Roupas de cores vivas mas combinadas com gosto. Algo próximo do estilo United Colors of Benneton, mas com um toque quase imperceptível de subúrbio. Viajava com dois sacos, cheios do que pareciam ser presentes. E entregava-se a um jogo difícil de acomodação dos presentes dos dois sacos num só. Entre transbordos da mercadoria, dá-me com um saco e pede-me de imediato delicadamente desculpa. Registo mentalmente a delicadeza das desculpas. Esboço um sorriso e digo-lhe que não tem importância. Ia a ler e assim continuei. Algum tempo volvido, mais um encontrão com o saco. Nem liguei. Mas pude perceber que ela se queria desculpar novamente. Olhei para ela e ela lá se desculpou, acompanhando as palavras com um sorriso franco. O sorriso queria dizer «desculpe lá, outra vez». É que isto há sorrisos que falam! E o sorriso ficava-lhe bem, dava-lhe cor e expressão a um rosto um pouco incaracterístico. Desculpei-a. E pensei de mim para mim que aquela dupla desculpa, dita com palavras e com sorrisos, merecia melhor recompensa do que um anódino «não tem importância», ainda que levando como contrapeso um sorriso. Por uma fracção de segundos, pensei se devia arriscar algo mais, isto para não ser tomado por cota presumido a querer meter conversa com uma chavalita ou so on, que desde que tenho cabelos brancos redobrei cuidados. E achei que ficava ali bem um Parabéns. Era óbvio que ela tinha feito anos e que regressava, porventura da escola ou do trabalho, com os presentes das colegas. E atirei-lhe com ele, testando-lhe também o sentido de humor. Ela correspondeu abertamente e assim fomos conversando. Que sim senhor, que tinha feito anos, que eram as prendas das colegas, etc. Achei piada à espontaneidade da reacção e da conversa e dei comigo a pensar quantas vezes retraímos a afabilidade e a amabilidade, em nome do socialmente correcto. É que por muito que queiramos, não nos é fácil atirar para trás das costas a velocidade do quotidiano urbano e a educação judaico-cristã em que fomos nados e criados…

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17 de fevereiro de 2007

Chão de terra batida…

Quando há três anos voltei a Lisboa, após um interregno de dez, e fui morar para uma zona diferente daquela em que sempre morei, desde logo reparei, no percurso que todos os dias faço, atravessando uma parte da Lisboa antiga, numa velha taberna que estoicamente resistia ao passar dos anos. Decerto uma renda antiga, decerto alguém em idade de já não conseguir fazer diferente do que sempre fez. Duvido que aquele negócio desse lucro. Sempre que passava de autocarro, reparava nela. Um velho e decrépito prédio do princípio do século passado. Portas de madeira pintadas e repintadas de castanho escuro, estafadas. Lá dentro, mesas surradas com tampos de mármore de dois dedos de altura, cadeiras de madeira cansada e alguns bancos corridos. Uma gaiola pendurada à porta. Um grande balcão de mármore e tábua lateral que se levantava para entrar. Velhos barris de madeira por trás. E, mais do que tudo, chão de terra batida, negra da sujidade de anos... Era quase uma adega de quinta, no centro da cidade... Um qualquer calendário e um relógio chinês de quartzo eram os únicos adereços que nos lembravam estarmos em 2007. Nunca consegui divisar bem o proprietário, mas lembro-me bem dos clientes, que nas roupas, penteados e bigodes parecia terem parado nos anos 60, 70, ou antes. E sempre, mas sempre, que ali passava, lembrava-me de uma velha tasca, igualmente com o chão de terra batida, que existia na rua da Academia das Ciências onde, há mais de 20 anos, eu, jovem estudante, e um velho confrade de certas lides, após assistirmos às sessões da vetusta Academia, escorropichávamos um copo de vinho – da casa, claro: havia outro?!?!? – e uns carapaus fritos, ali mesmo na hora, secos em papel pardo com riscas azuis ou na falta dele, em papel escuro do açúcar Sidul… Essa há muito desapareceu. Esta fechou há umas semanas… Uns tapumes de madeira cobrem agora a velha porta… Foi também um pouco de uma certa Lisboa e um pouco de mim que ali ficou entaipado…

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