27 de novembro de 2005
FRASES DA PÓLIS II - O sofrimento do quotidiano
Manuela Fleming
JL (n.º 917, 23-11 a 06-12-2005)
26 de novembro de 2005
Flecte, flecte, insiste, insiste, «bué»

«Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com aspecto plural e alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. O artigo, era bem definido, feminino, singular. Era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, ilábica, um pouco à tona, um pouco ao contrário dele, que era um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos. O substantivo até gostou daquela situação; os dois, sozinhos, naquele lugar sem ninguém a ver nem ouvir.E sem perder a oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu-lhe esse pequeno índice.
De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro. Óptimo, pensou o substantivo; mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos.
Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeçou a movimentar-se. Só que em vez de descer, sobe e pára exactamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela no seu aposento. Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, suave e relaxante.
Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela.Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele recomeçou a insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando o seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo. Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo directo. Começaram a aproximar-se, ela tremendo de vocabulário e ele sentindo o seu ditongo crescente.
Abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples, passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula. Ele não perdeu o ritmo e sugeriu-lhe que ela lhe soletrasse no seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, pois estava totalmente oxítona às vontades dele e foram para o comum de dois géneros. Ela, totalmente voz passiva. Ele, completamente voz activa. Entre beijos, carícias, parónimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais.
Ficaram uns minutos nessa próclise e ele, com todo o seu predicativo do objecto, tomava a iniciativa. Estavam assim, na posição de primeira e segunda pessoas do singular. Ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.
Nisto a porta abriu-se repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo e entrou logo a dar conjunções e adjectivos aos dois, os quais se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou melhor, subtónica, o verbo auxiliar logo diminuiu os seus advérbios e declarou a sua vontade de se tornar particípio na história. Os dois olharam-se e viram que isso era preferível, a uma metáfora por todo o edifício.Que loucura, meu Deus.
Aquilo não era nem comparativo. Era um superlativo absoluto. Foi-se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado aos seus objectos. Foi-se chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo e propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que, as condições eram estas. Enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria no gerúndio do substantivo e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido depois dessa situação e pensando no seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história.
Agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, atirou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.»P.S. - Qualquer semelhança entre esta história e pessoas ou acontecimentos reais é mera coincidência. Não, não sou o «substantivo», mas também não sou o «verbo auxiliar do edifício», safa...
25 de novembro de 2005
Contrabalançando o «bué» e o «buereré»

1 – Expõe-me com quem deambulas e a tua idiossincrasia augurarei
Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és
2 - Espécime avícola na cavidade metacárpica supera os congéneres revolteando em duplicado
Mais vale um pássaro na mão que dois a voar
3 - Ausência de percepção ocular, insensibiliza órgão cardial
Olhos que não vêem, coração que não sente
4 - Equídeo objecto de dádiva, não é passível de observação odontológica.
A cavalo dado não se olha o dente
5 - O globo ocular do proprietário torna obesos os bovinos
O olho do amo engorda o gado
6 - Idêntico ascendente, idêntico descendente
Tal pai, tal filho
7 - Descendente de espécime piscícola sabe locomover-se em líquido inorgânico
Filho de peixe sabe nadar
8 - Pequena leguminosa seca após pequena leguminosa seca atesta a capacidade de ingestão de espécie avícola.
Grão a grão enche a galinha o papo
9 - Tem o monarca no baixo ventre
Tem o rei na barriga
10 - Quem movimenta os músculos supra faciais mais longe do primeiro, movimenta-os substancialmente em condições excepcionais
Quem ri por último ri melhor
11 - Quem aguarda longamente, atinge o estado de exaustão
Quem espera desesperaImagem - Iluminura da Bíblia de Cervera (Site da Biblioteca Nacional)
23 de novembro de 2005
Vinhos da Estremadura num domingo de chuva

19 de novembro de 2005
O «bué» e outras considerações…

«Cavalheiro» vem do castelhano «caballero» (JPM-Etimol., II, 103);
«Bacalhau» é de origem obscura mas virá talvez (de acordo com Piel) do
neerlandês;
«Batata» vem do idioma taino, da ilha de S. Domingos (JPMachado-Etimol., I, 402).
Quanto ao «bué», e já agora ao seu superlativo «buereré», logo calculei que estas palavras fossem aberrações para as Krónicas Tugas. Apesar de tudo, aberrações consagradas pelos dicionaristas (v. Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, vulgo da Academia, I, 592). O «bué» inclui-se num lote de palavras que resultam das influências dos diferentes dialectos «crioulos» em Portugal. E isso devido à forte presença entre nós de comunidades dos antigos países de expressão oficial portuguesa.
O que eu acho é que também na Língua deve imperar a tolerância. A «contaminação» linguística – aplico a palavra sem qualquer sentido pejorativo – é inevitável e até desejável. A integração de vocábulos só cria pontes entre as culturas. Não as afasta. Além disso há «registos» para tudo. Não me choca o «bué» num registo oral, informal, e mesmo em alguns contextos escritos.
A Língua é um importante factor de identidade e de aproximação dos povos. Atitudes intolerantes, também nesta matéria, só podem gerar situações como as que recentemente se viveram em França (talvez não seja por acaso que tal tenha ocorrido em França e não noutro país: lembremo-nos da proibição do «véu» por decreto). Dir-se-á que a questão do «bué» é uma situação pequena. Parece-me, porém, que se virmos para lá da «espuma das ondas», ela não é tão pequena como isso…
18 de novembro de 2005
A «história» da «estória» que é bué fixe…

Nesta questão em concreto, também me parece que a palavra «estória» tem origem no Brasil, já que não vem referenciada em nenhum dos grandes dicionários portugueses, designadamente, José Pedro Machado, Morais, Cândido Figueiredo, Porto Editora e mesmo no recente dicionário da Academia. Aparecendo só no ainda mais recente, porém de matriz eminentemente brasileira, Houaiss, referida como «termo antigo, o mesmo que história. Trata-se de um termo de origem medieval que significa narrativa de cunho popular e tradicional; história» (Lisboa: Círculo de Leitores, 2003, t. 3, p. 1634). Deixando de fora os dicionários, aparece «economicamente» referida na Grande Enciclopédia Portuguesa Brasileira como «grafia antiga de história» (v. 10, p. 493) e também na Enciclopédia de O Público com a seguinte definição «arcaísmo que se procura revitalizar para, em contraste com história (baseada em documentos), significar narrativa de ficção» (2004, t. 8, 3412).
Confesso, porém, que não me parece mal a sua utilização. Eu uso-a, com parcimónia, mas uso-a e acho que ela me enriquece enquanto escrevente da Língua Portuguesa. Também não acho que as importações que fazemos das outras línguas e sobretudo do Português do Brasil – se é que nesse caso se pode falar de importação – sejam sempre más. Não gosto do «arianismo» linguístico, que aliás nem sequer existe, pois o que é afinal a nossa Língua e todas as línguas senão evoluções umas das outras. Para além da matriz latina, que aliás tem desde logo na sua base elementos celtas e elementos autóctones provenientes dos idiomas pré-existentes no território português, e das influências gregas e árabes, está ou não o Português pejado de anglicismos, de galicismos, mas também de castelhanismos, de germanismos, de italianismos, etc., etc.? É claro que está. E ainda bem que está, porque a língua é um organismo vivo, em constante mutação, permanentemente a aculturar e a ser aculturada, a incorporar e a eliminar léxico. Ainda bem, porque é essa diversidade que faz a nossa riqueza. O Pólis sabe que o Kroniketas é um «cavalheiro» e que certamente aprecia um bom «bacalhau» com «batatas» - já não vamos para o cabrito ou para o borrego - num bom «restaurante», pagando a seguir com um cartão de um qualquer «banco». Ora, contrariamente ao pagamento da tal refeição, para escrever esta frase, o Português pediu «emprestados» termos ao castelhano, ao francês e previsivelmente ao neerlandês, ao taino e ao italiano. Levando a «coisa» ao extremo, ainda bem que posso dizer sem aspas e com toda a propriedade que a Língua Portuguesa é bué ou até mesmo buereré fixe…
13 de novembro de 2005
CURTAS DA PÓLIS – «Gaffes» de Soares & Cavaco também se engana

O «homem» é «humano», engana-se e tem dúvidas…
Há algum tempo também foi menos falada na comunicação social a «gaffe» de Cavaco Silva quando chamou «Assembleia Nacional» à «Assembleia da República» e na sexta-feira, num dos telejornais, referindo-se às próximas «eleições presidenciais», chamou-lhes «eleições autárquicas» e foi até ao final do discurso aparentemente sem se dar conta do lapso…
Curiosamente não vi estas serem associadas à sua também já «respeitável» idade (66 anos).
De todo o modo, ficámos pelo menos a saber que o «homem» afinal é «humano» e engana-se…
Ainda não sabemos é se tem dúvidas…
Imagem . Logótipo do blogue Super Mário
11 de novembro de 2005
Segredo de Justiça & Outsourcing - Ligações Perigosas

8 de novembro de 2005
A medida das diferenças entre Portugal e Espanha…

Perante esta notícia – infelizmente trágica – não pudemos deixar de pensar que, para além dos indicadores económicos, existem muitas outras formas de percepcionar as diferenças de desenvolvimento entre os países… E uma delas é a nacionalidade dos mortos na construção civil… É que se fosse em Portugal, dos 6 mortos, 1 seria português e 5 guineenses, cabo-verdianos ou ucranianos…
Como se vê, também por aqui se mede o desenvolvimento económico e social da Pólis…
Mais Vinhos do que Sabores…

A acompanhar a qualidade etílica e a qualidade da companhia, a organização do encontro também foi profissional, sob todos os aspectos, onde se inclui o «visual» dos stands – os restantes convivas sabem do que falo...
Se todos os sectores da agricultura portuguesa fossem tão dinâmicos como o do vinho, certamente que aquela não estaria tão mal… Assinale-se, pois, o grande desenvolvimento que teve este sector nas últimas décadas: contratação de enólogos profissionais, estrangeiros e portugueses, grande investimento na produção – introdução e combinações de castas – com reflexos na qualidade do produto, mas também no layout do mesmo (rótulos, garrafas, apresentação geral) – havia rótulos gráfica e plasticamente de excelente design – na divulgação, na distribuição, etc., etc.
Vamos, sem dúvida, repetir.
7 de novembro de 2005
A quadratura do círculo na Justiça das Pólis

4 de novembro de 2005
Preconceito sem Orgulho no Expresso

«A FAMÍLIA de Felícia Moreira pôs em tribunal a multinacional Abbott, alegando que Felícia morreu por ter tomado um medicamento daquele laboratório, durante um ensaio clínico. Trata-se de uma acção inédita em Portugal, pretendendo a família de Felícia que a multinacional «trate os doentes europeus, e no caso os portugueses, da mesma maneira que trata os norte-americanos», explicou ao EXPRESSO o filho da doente, o economista, Fernando Moreira».
O que nos interessa, porém, hoje assinalar aqui é a indicação, dada pela jornalista, da profissão do filho de Felícia Cabrita, que nada acrescenta à notícia. Porquê referir-se «economista». A notícia é sobre «Economia»? Tem de se invocar essa qualidade? A profissão acrescenta alguma coisa à notícia? A profissão confere credibilidade aos factos relatados? Se o filho da doente fosse empregado da construção civil, canalizador, mecânico, isso apareceria? É óbvio que a resposta a estas questões é «Não». E um «Não» rotundo. Essa indicação, porém, encerra um preconceito social e um elitismo idiota por parte de um jornal de referência como pretende ser o Grande Educador do Povo da Pólis (GEPP). O «tique», porventura involuntário, do GEPP, é afinal um pouco o reflexo de todos nós, enquanto povo. Recém chegados à «ilustração» dos cursos universitários e à «terciarização», o nosso reconhecimento social advém em muito do prestígio das profissões e dos títulos universitários que ostentamos... Lembro-me sempre, quando vejo destas, das palavras de um velho professor quando, na Faculdade, nos referia que uma «licenciatura» era apenas – e de acordo com a origem e o uso da designação medieval da expressão – uma «licença para ensinar»… E já agora – por falar em jornalismo de referência – o título interior da notícia é Ensaio para a morte. O 24 Horas, que para o GEPP não é um jornal de referência, certamente não faria melhor…
Eis, pois, no seu melhor, o melhor jornalismo da Pólis…
3 de novembro de 2005
O tempo da crónica II

«A crónica jornalística é uma informação interpretativa, de factos noticiosos onde se narra algo ao mesmo tempo que tal é comentado. Não é reportagem, não é artigo, é um género ambivalente que tanto valoriza o relato noticioso de factos quanto a opinião do cronista.[…] A continuidade da publicação das crónicas estabelece uma corrente de simpatia, de identificação entre o leitor e o autor, convertendo este último numa espécie de confidente ou de cúmplice do primeiro.[…] Na crónica não se pode falar da existência de um estilo objectivo. Podemos considerar que o estilo da crónica é absolutamente livre, ainda que se encontre geralmente sujeito ao imperativo duma notícia, facto, ou relato.
[…] De qualquer modo, o cronista deve sentir-se livre de estilos, regras ou preceitos formais, comunicando da forma como sente os factos e tirando partido do mais próprio do seu estilo. A crónica está a meia distância da notícia e do editorial, da informação, dura e pura e do comentário formal.»
Pequeno breviário jornalístico: géneros, estilos, técnicas. 2.ª ed. Lisboa: Editorial Notícias, 2000, p, 51 e 52.
1 de novembro de 2005
Leituras da Pólis II – «Amor» de Mega Ferreira

P.S. – Como factor negativo, o papel do «livrinho», a edição é a de 2004, do Círculo de Leitores. Pensávamos que no séc. XXI já não se faziam livros com aquela qualidade de papel, ainda para mais no Círculo de Leitores… Onde até já esteve o autor... Cheio de acidez… Pouco melhor que o papel de jornal… Vai envelhecer mal e durar menos de 100 anos, e com muito boa vontade, dizemos nós… Porém, o suficiente para muitos desfrutarem dele. Não gostámos da tentativa, muitas vezes forçada, por parte do autor, de mostrar «erudição», leituras, mundo... Não havia necessidade, eles naturalmente já lá estão…
Foto – Edição de «Amor», da Assírio & Alvim