16 de maio de 2008

To smoke or not to smoke

O PM e a comitiva fumaram no avião na viagem de estado para a Venezuela, em violação da recente lei que proíbe o fumo em diversos locais, inclusive nos transportes. Logo houve quem viesse acusar O Público, que tratou o caso, de perseguição. Logo houve também quem viesse acusar o PM de hipócrita por não cumprir com aquilo que legisla. O PM veio pedir desculpas com declarações muitíssimo normais. E esvaziou aquilo.
Eu acho que ambos fizeram o que tinham a fazer. O PM violar uma lei recente e polémica é notícia e como tal deve ser tratado. O Público fez o seu trabalho. O PM reconhecer que violou a lei e pedir desculpa é sério. Não se refugiou em ardis jurídicos de mau pagador como o inspector-geral da ASAE.
Isto é a democracia a funcionar.
Há quem venha agora dizer – já o ouvi de alguns juristas e até de constitucionalistas?!?! que se pronunciaram sobre esta magna questão – que se devia levantar um processo e que o PM devia pagar a respectiva multa. Há sempre destes zelotas! Não me interessa grandemente. Se quisermos ser estritos, sim. Mas o fundamental já ele fez que foi reconhecer e pedir desculpa. Agrada-me sempre ver reacções normais nos políticos.

Obs. - E a foto, foi retirada daqui.

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11 de maio de 2008

Verdade/Justiça vs habilidade/lei

Esta chegou-me há uns dias por mail, pela mão de uma amiga. Tal qual está. Corrigi apenas um errito ortográfico. Chegou-me inclusive com a nota que está em baixo. Não lhe dou, pelo menos à nota, nenhum crédito. Acho que não deve ser verdadeira. Independentemente de o ser ou não, o que a carta acaba por ilustrar é um modo de funcionamento conhecido de todos em que a Verdade e a Justiça ficam sempre a perder para a habilidade argumentativa e para a lei. Lembrei-me desta e recuperei o texto após conhecer o desfecho da Comissão de Disciplina da Liga Portuguesa de Futebol Profissional sobre o caso Apito Final e depois de ver as declarações de alguns engenheiros nas televisões da Pólis.

Argumentação de um engenheiro português que foi apanhado a 250 Km/h numa estrada onde o limite era de 70 Km/h.
Ex.mo Sr. Dr. Juiz,
Meretíssimo:
Confirmo que vi na estrada a marca de 70 em números negros inscritos num círculo vermelho, sem qualquer informação de unidades.
Ora, como sabe, a Lei de 4 de Julho de 1837 torna obrigatório em Portugal o sistema métrico, e o Decreto 65-501 de 3 de Maio de 1961, modificado de acordo com as directivas europeias, define, como unidade DE BASE LEGAL, as unidades do Sistema Internacional, SI. Poderá confirmar tudo no site do Governo.
Ora, no sistema SI, a unidade de comprimento é o "Metro", e a unidades de Tempo é o "Segundo". Torna-se portanto evidente que a unidade de Velocidade é o "Metro por Segundo". Não me passaria pela cabeça que o Ministério aplicasse uma unidade diferente.
Assim sendo, os 70 Metros por Segundo correspondem, exactamente a 252 Km/h. Ora a Polícia afirma que me cronometrou a 250 Km/h o que eu não contesto. Circulava portanto 2 Km/h abaixo do limite permitido.
Esperando a aceitação dos meus argumentos, de V. Exa.
António Nogueira
(Engº Civil, IST)
NOTA: O ENGENHEIRO NÃO FOI CONDENADO!

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27 de abril de 2008

Passa ao outro e não ao mesmo...

Faço natação duas vezes na semana. A piscina é pública mas a gestão é privada. A segurança também é privada. Temos, então, três entidades envolvidas na coisa: uma, pública, proprietária da infra-estrutura. Outra privada, para gerir o serviço. Outra ainda, também privada, para assegurar a vigilância. Gostava imenso de saber quais são os valores envolvidos nisto para perceber se não seria mais rentável a entidade pública assegurar também a gestão e a vigilância. Tenho uma ideia, claro, mas deixemos isso. Embora ache que o Estado se está a retirar demasiado de muitas funções e a alienar outras para as entregar, por pura ideologia, aos privados, não tenho sobre isso qualquer preconceito original. Quero é qualidade de serviço, quer seja público, quer seja privado. Mas também não sou dos que acha - do que conheço e lamento imenso dizê-lo - que o sector privado preste globalmente melhores serviços do que o sector público.
Num dia destes, fui à piscina já encostado aos limites do horário. Fiz os meus 45 minutos da praxe, tomei banho e saí cerca de 15 minutos para lá da hora. Note-se que, da hora para a frequência da piscina, não da hora para sair das instalações. Pois há sempre um hiato entre a saída da piscina e a saída das instalações. E que tem a ver com a permanência no balneário para tomar banho, vestir, secar cabelo, arrumar as coisas, etc. Um pouco à semelhança dos supermercados. Fecham no horário estabelecido. Não deixam entrar mais ninguém, mas os que estão acabam as suas compras, pagam e vêm-se embora.
À hora da saída, a recepcionista já não estava. E eu precisava de recuperar o meu cartão, trocando-o pelo cartão do cacifo do balneário. Questionei o segurança que me disse: «eu aí [no balcão da recepcionista] não entro». Questionei uma segunda vez e levei com idêntica resposta. Sem mais, entrei pelo balcão e dirigi-me, sob o olhar do segurança, que não fez qualquer esforço para o impedir, ao local onde estavam os cartões, recuperei o meu e saí. Pelo meio, soltei uns comentários sobre a excelência do serviço mas o homem nem tugiu, nem mugiu. Acho que nem sequer percebeu o alcance dos mesmos. Para fazer o que ele (não) fez, um cão serviria perfeitamente e saía seguramente bem mais barato à empresa de segurança…
Ora este tipo de comportamento, que nem sequer vou comentar ou dissecar, por não valer a pena, não se regista hoje nem nos piores serviços públicos que conheço…

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15 de fevereiro de 2008

Cafés & Justiça, Ld.ª

Hoje ouvi umas declarações balofas do PGR sobre a Justiça. Pura conversa da treta. Uma conversa redonda para despachar jornalistas, os quais, aliás, ele trata com alguma sobranceria. O que é característico dos agentes da Justiça sempre que falam com profanos. Usam de uma condescendência paternalista, do tipo: «olha o pateta que não percebe nada disto». Eu acho que os profanos têm de os dessacralizar e adoptar uma atitude de exigência, que claramente lhes diga: «o sistema só existe porque nós existimos; vocês estão aí para nos servirem; nós somos os clientes; vocês servem-nos mal». Além de nos servirem mal, custam-nos caríssimo, já que juízes e procuradores, já para não falar nos advogados, ganham todos muitíssimo bem. E atento o rácio custo/benefício, ganham obscenamente bem.
O PGR disse apenas isto: «o estado da Justiça em Portugal está bem melhor». É insensato, quase indecoroso, que ele diga isto sem apresentar factos e provas. O homem deve estar a ver outro filme qualquer! E ele, que não tenho por mal intencionado, diz isto porquê? Porque é um agente da Justiça e tal como a maioria deles já há muito que se enredou naquele mundo, já há muito que perdeu a capacidade crítica em relação àquele mundo. Mundo esse que perdeu completamente a capacidade de se regenerar, de se auto-reformar. Qualquer acção nessa área terá de ser feita de fora para dentro. Pelo Parlamento, pelo PR, pelo Governo, por um pacto entre todos, por quem quer que seja. Não chega, reorganizar o mapa judicial.
Há um ou dois postes, de forma um pouco provocatória, reagi a um comentário dizendo que era mais importante para mim a qualidade do atendimento nos cafés da Pólis do que a qualidade do sistema judicial. E na verdade, é-o. Não porque o sistema judicial não seja mais importante do que os cafés, mas porque funciona mal, mas tão mal... É tão lento, tão formalista, tão «by the book», tão caro, que procuro organizar-me sem recorrer a ele. Consegui já passar mais de quatro décadas sem entrar num tribunal e espero conseguir somar outras tantas sem lá pôr os pés. Não porque não me faça falta recorrer à Justiça. Recordo, aliás, dois casos, na minha vida, em que senti essa falta. Mas como sei o que a casa gasta e os gastos da casa, não o fiz. Conformei-me com as situações ou resolvia-as de outro modo. E assim pretendo continuar a fazer. Ao passo que aos cafés, uso-os todos os dias…

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16 de janeiro de 2008

Clientes, pois, talvez!

Faz-me sempre impressão quando profissionalmente as pessoas agem com base no manual. Há regras, normas e procedimentos. E têm de se cumprir custe o que custar, sacrificando a racionalidade e o mais elementar bom senso. Só concebo isso no exército, por razões que não colhe aqui desenvolver, e mesmo assim com alguma modalização.
Ontem fui tomar um café com uma amiga ao fim da tarde. Combinámos encontrar-nos na Cinemateca, cujo café-restaurante é um espaço agradável para se estar. Chegámos e o dito espaço tinha cerca de 50% das mesas ocupadas. A outra metade não ocupada das mesas estava posta para o jantar. Isto às 18H00!? Em número de cadeiras, o espaço estaria ocupado talvez em cerca de 20%. Fomos a outro lado. O empregado – com um sotaque espanholado – talvez tivesse dito que lamentava, mas sobretudo disse com a boca ou com o corpo que não havia nada a fazer. A minha amiga ainda embrulhou um comentário que era um pedido num sorriso, dizendo algo do tipo: «pois, sendo assim, temos de ir a outro sítio». Ou coisa equivalente. Mas o indivíduo não se demoveu. Pareceu-me um tipo liso. Há gente assim, aplanada na atitude.
Não sei bem como qualificar isto! Mas, em primeiro lugar as mesas não devem estar postas para jantar às 18H00 e em segundo é incompreensível que aquele espaço tenha perdido naquele momento e talvez para o futuro dois clientes.
Alguém terá de dizer ao rapaz que ele só devia pôr as mesas para jantar uma hora depois ou pelo menos que devia desocupar algumas delas quando há clientes. Já nem sequer digo que alguém lhe devia dizer que os clientes são a razão de ser daquele espaço e que sem clientes
aquele espaço não existe.
Nota - E a foto foi retirada daqui.

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28 de outubro de 2007

Pobrezas

Há a pobreza material e há a pobreza de espírito. Por vezes, andam juntas.
Há uns meses, a pessoa que assegurava o expediente geral e algum secretariado do meu departamento reformou-se. Tinha 59 anos e o tempo de serviço requerido. Foi à vida e fez bem. Os tempos não correm de feição para quem trabalha na Administração Pública. Pouco depois, consegui, após férreas negociações internas, uma pessoa com pouco mais de 40 anos que já trabalhava na organização ao abrigo de um programa de colocação de desempregados promovido pelo Centro de Emprego. Na diferença de idades, vislumbrei eu uma maior competência no manejo com as novas tecnologias. Enganei-me rotundamente. A pessoa em questão tem o 12.º ano e havia frequentado o primeiro ano de um curso superior. Ao que sei, já havia desempenhado funções administrativas num negócio familiar. Ignoro se teve outras experiências. Sei que está a receber subsídio de desemprego há bastante tempo. Na organização, não irá ficar. E nos primeiros meses do próximo ano irá mesmo perder, por ter atingido o tempo limite de concessão daquele benefício, o subsídio de desemprego. Abaixo disso, só há – ao que sei – o rendimento social de reinserção. O ponto mais baixo da escala da pobreza, se assim lhe quisermos chamar. Entretanto, contraiu um empréstimo bancário para comprar a casa onde mora. O preço foi baixo porque ela já habitava a casa e antes dela a avó com quem sempre viveu. De onde, tem hoje mais responsabilidades do que tinha. Além de ter de sobreviver, terá de pagar a prestação do empréstimo ao banco que é superior à renda que pagava.
Todas as semanas, à quarta-feira, ela vai, por obrigatoriedade legal, ao Centro de Emprego creio que para procurar alguns dos empregos disponíveis. Vai lá uma hora ou duas e falta o dia todo. Um dia fiz-lhe menção disso. E ela disse-me logo que aquele era um direito que tinha, regulado não sei por que portaria. Perguntou-me se queria ver a portaria. Disse-lhe que não. Creio que não deverá ser bem assim, mas não curei de averiguar melhor. A atitude chega-me e sobeja-me. Quero lá saber do enquadramento normativo da coisa. Ela não percebeu nem uma atitude, nem outra. Além da manha patente em pequenos truques, de que aquele é apenas um exemplo, não pensa, não sabe priorizar tarefas, não tem ritmo de trabalho, executa mal, é lenta, não tem consciência do que sabe e do que não sabe, não conhece, nem se adapta à cultura da organização e do meu departamento em particular. Enfim, é uma administrativa má, nem sequer medíocre chega a ser. Acontece, porém, que, apesar de tudo, tenho pena dela. Aquela pena que se tem pelos pobres de espírito e porque me preocupa o day after. Ou seja, o dia em que ela deixar de receber subsídio de desemprego e vou-me procurando inteirar da evolução da situação. Tentei mesmo enquadrá-la e chamá-la um pouco à realidade. Procurei – agora já não procuro – dar-lhe a entender que em empregos como funcionária administrativa há mais oferta do que procura. Isto para não lhe dizer de chofre que ela nunca será uma administrativa capaz. Ela procura fugir à conversa e um dia senti mesmo que estava a ser intrusivo e inconveniente.
Acontece que há umas semanas, ela foi a uma entrevista profissional. Era para empregada de peixaria de um conhecido supermercado de Lisboa. O vencimento-base era de cerca de 700 euros. Trabalharia por turnos, sendo os da noite mais bem pagos, o que acrescia ao vencimento. Teria um seguro de saúde. Rejeitou porque acha – acha! – que não aguentaria o cheiro da peixaria.
Acontece ainda que há uns meses, outra oportunidade lhe havia surgido, agora para um lar de idosos. Rejeitou, segundo me disse, porque não conseguia lidar com o envelhecimento, depois da experiência traumática que teve com a avó.
É também disto que se fala quando se fala de pobreza.

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30 de setembro de 2007

O bricabraque do fisco

Muito se fez no fisco nos últimos anos. Ainda assim coexistem duas realidades diferentes. Sobretudo ao nível das pessoas e das instalações. As práticas, os procedimentos, e as tecnologias a eles associadas, esses claramente melhoraram. Aqui há uns meses tive de ir à minha repartição de Finanças. Desde que moro nesta morada – há cerca de 4 anos – nunca lá havia ido. Uma ou outra situação tem sido tratada pelo elemento feminino, que se encarrega prioritariamente desses assuntos, de onde não conhecia o espaço. E foi uma experiência interessante. A criatura que primeiro me atendeu era um funcionário dos antigos mas polido e cortês. O polimento pode ter sido recente ou já ser de seu natural. Não consegui perceber. Particularidade: o homem via mal, pelo que ostentava uma gigantesca lupa ao peito. Pouco depois, fui à tesouraria, situada no rés-do-chão do prédio. Um prédio dos anos setenta no centro de Lisboa. Foi moderno, em tempos, hoje ostenta sinais visíveis de decadência. Como tive de esperar uns bons 20 minutos, deu para tudo. E fui observando o que se passava à minha volta. Desconto os contribuintes e foco-me nos funcionários e nas instalações. A tesouraria é uma sala ampla onde já trabalharam provavelmente mais de uma dezena de pessoas, antes de as máquinas substituírem as pessoas. Estavam lá duas. Desses tempos gloriosos, das velhas repartições, - só o nome já tem peso - resta o mobiliário e alguns adereços. O profissionalismo, que chegou aos procedimentos e à atitude das pessoas com os cidadãos, através de cursos de formação mais ou menos hormonais, parou aí. Não chegou às instalações, nem à atitude das pessoas no trabalho. E assim, aquilo era uma espécie de bricabraque, com objectos de toda a sorte. Num dos guichets, vi uma bola com cabelo azul, presumo que um recuerdo de péssimo gosto do Belenenses. Num outro, uma carta de jogar com a cara do funcionário titular do guichet bem no meio dos naipes. Numa parede, um calendário com uma paisagem de uma empresa metalúrgica. Semeados pelas paredes, vários outros. Uma paisagem, duas rosas, dois cães, calendários que já foram calendários, noutras eras... Mas que, depois de retiradas as folhas, e dada a beleza intrínseca dos motivos, lá foram ficando... Uns curiosíssimos arquivadores metálicos cor de tijolo e, por cima deles, umas jarras ou vasos de flores plásticas, decrépitas, com pelo menos 20 anos. É que nem as plásticas conservam o viço tanto tempo! Noutro ponto da sala, uma miniatura de um barco, um postal com um desenho de um bebé sorridente dizendo: «Eu sou optimista». Lembro-me bem daqueles posters, com 20 anos ou mais. A um canto, várias ventoinhas decrépitas, de antes do embaratecimento dos electrodomésticos, coexistindo com uns aquecedores a óleo, esses sim recentes, mas de linha branca, cada um de sua nação. Fotos de família, com e sem moldura, uma colada nos vidros. Vidros, aliás, aos quais a diligência do pessoal de limpeza – decerto provindo de um qualquer outsourcing – não chegou para remover restos de cola. Um ecrã moderno ia desfiando os números. Quando chegou à minha vez, pedi um impresso para adquirir o selo do carro. Ao que a funcionária me respondeu condescendente – com um ar de quem diz: «que burro, não sabes que isto está tudo informatizado!» - que já não era preciso. Recitei o número de contribuinte e logo a criatura me perguntou se era proprietário do veículo com a matrícula Y. Digo que sim, pago com MB e ela diz-me que irei esperar 15 dias – por acaso demorou um mês – pelo envio do dístico pelo correio. O mundo do fisco está, de facto, diferente, mas os resquícios do velho mundo ainda lá estão…

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17 de setembro de 2007

Todo-o-terreno

Ontem fui à Costa de Caparica. Gosto especialmente da praia em Setembro. Os dias de fim de Verão são dos melhores. Os pôr-do-sol têm outro encanto. A praia fica mais amena, as pessoas são menos. O ritmo da praia é igualmente outro. Pressente-se já a mudança de estação. Tem-se, num dia só, um pouco de Verão e um pouco de Outono. Além do mais, ainda apanhei a melhor água da época, Algarve incluído. Tépida como nunca a havia visto este ano.
O cenário era o ideal, não fosse o Instituto de Socorros a Náufragos (ISN) e a Marinha. Não sei se a época balnear já terá acabado, pelo menos para o ISN! Mas realmente não vi nadadores-salvadores na praia. Ao contrário, porém, vi dois jeeps, um do ISN – sinal de que afinal a época não acabou de todo - e outro da Marinha. Até aqui tudo mais ou menos. Já é normal, mas porventura não curial, esses carros andarem pela praia, junto às dunas, portanto na parte menos ocupada do areal. Ontem, porém, resolveram andar junto à água, em velocidade lenta, é certo, mas junto à água. Obrigados a parar a cada passo por uma criança a brincar na areia, por um banhista, etc., etc., lá passavam aqueles todo-o-terreno, máquinas e homens... Vigiar a praia, sim, mas com nadadores-salvadores presentes e polícias a pé...

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24 de julho de 2007

Queirosiano desembargador?!?!

Tenho assistido nas páginas da Visão à polémica pública entre o escritor e cronista Manuel António Pina (MAP) e o juiz Eurico Reis (ER). Aquilo começou tudo por um escrito de MAP onde apodava ER de «queirosiano desembargador». ER sentiu-se insultado e pediu esclarecimentos. MAP não deu grandes esclarecimentos e ainda apontou – ó que heresia – um erro de Português a ER. A polémica não tem, quanto a mim, qualquer razão de ser. Primeiro, a expressão de MAP metida numa crónica é lícita. É uma caracterização, caricatural é certo, mas que não carece, a meu ver, sequer de nenhum esclarecimento. Ainda por cima parece-me ser sobretudo física. Recordo-me de ler em Eça a expressão «desembargador apopléctico» e «desembargador de figura apopléctica» e referências a desembargadores associados a lautas comezainas. Se for isto, como parece, basta olhar para o desembargador para logo constatarmos que a imagem encaixa. Tudo espremido, quando muito ficará provado que MAP chamou obeso a ER. Mas mesmo que fosse mais do que isso, ER tem de perceber que se anda na televisão e nos jornais a comentar está sujeito a isto. É que aqui está sem a beca! Mas ele não o percebeu. E agora vem a público dizer que vai processar MAP. Com isto presta um muito mau serviço à causa da Justiça, por fazer o que faz – é óbvio que aquilo nunca resultará em nenhuma condenação e ele sabe-o - e sobretudo nos moldes em que o faz. Se quiserem leiam o texto integral clicando duas vezes na imagem. Por mim, respigo as passagens que considero mais significativas de uma atitude deplorável:
«Por isso mesmo, irá, a mal ou a bem, aprender que o sistema judiciário não é tão simples ou 'simplório' como alguns lhe terão dito que era».
«O último a rir é o que ri melhor»
«Do articulista não recebo lições nem de português. Muito menos de cidadania».
Um aparte final para dizer que acho que MAP até teve muita sorte em não dizer o «camiliano desembargador». É que, tanto quanto me lembro, Camilo, numa obra de que não posso precisar o título e que cito de memória, disse, a propósito de uma personagem, qualquer coisa como: «tinha a estupidez de um desembargador»... Já se vê que se isso acontecesse, seria a desgraça completa e estaríamos a falar de uma indemnização colossal por danos morais ou o que fosse...

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23 de julho de 2007

Lê o quê? (Fotos da Pólis IV)

Esta foto era para ser colocada no poste anterior. Porque a leitora, que deveria ter aí uns 8 ou 9 anos, lia o último livro da saga Harry Potter. Acabou, porém, resgatada à triste sina de apenas ilustrar um poste. E merece-o. Porque ela lê, porque lê como se deve ler, ou seja com toda a descontracção do mundo, porque eu gostava de ter feito o mesmo e não fiz - designadamente tirar os sapatos -, porque foi uma lufada de ar fresco na minha tarde de ontem, porque não esperava encontrar um tal quadro naquele sítio inóspito...
Lisboa, Centro Comercial Colombo, 21-07-2007
Foto - Pólis&etc.

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3 de julho de 2007

O ministro-pescador ou o pescador-ministro

O despudor que se pressentia aqui ou ali, em coisas mais ou menos subtis, tornou-se agora alarvemente grosseiro. Mostra-se e já tem pouco recato. Agride quem vê. E vai alastrando, qual mancha de óleo, até àqueles que, à primeira vista, pareciam, pelo seu carácter, blindados a ele. Desta feita, foi o ministro Jaime Silva que parece, também ele, querer ganhar o estatuto de cromo e de personagem da Pólis. Hoje, passeou-se em Matosinhos, com o comissário europeu das pescas, um tal Joe Borg. E deparou com um protesto de pescadores. Um protesto crítico, claro, mas civilizado. Um dos manifestantes disse qualquer coisa como: «A UE não nos dá nada, muito pelo contrário». E o cromo, em vez de estar calado, dizer qualquer coisa de pacificador ou fazer alguma conversa redonda, para empatar, como lhe pedia o estatuto, diz alarve: «Olhe, peça para sair da União Europeia». É claro que as declarações ficam com quem as profere. E naquele preciso momento, pensei, por instantes, que quem devia estar no lugar do ministro era o pescador e no lugar do pescador o ministro. O cromo apoucou-se aos olhos de todos e, mais grave, penso que nem sequer se deu conta disto…

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30 de junho de 2007

Gente fora de prazo

Ontem acordei com uma notícia na TSF sobre um personagem da Pólis, de seu nome Correia de Campos. Governa a Saúde. Já se conheciam vários episódios da sua autoria. Num dos quais, bastante glosado pela imprensa da Pólis, o personagem chegou mesmo a partir uma cadeira num hospital, com o fito de mostrar que o material estava velho, ou coisa que o valha. Há outros! O personagem é truculento e presta-se por isso a estes episódios. Escudado pelo cargo e por um governo de maioria absoluta, ei-lo impante e em roda livre. Porém, nenhum desses episódios mais ou menos burlescos foi, aos meus olhos, tão chocante como o de ontem. Numa conferência na Ordem dos Economistas, e confrontado com um farmacêutico que lhe terá apresentado um saco de medicamentos fora de prazo, o personagem terá dito. Cito de memória: «esses medicamentos devia era dá-los aos pobres». O personagem depois desmentiu. Que não sabia que os medicamentos estavam fora de prazo. Blá, blá, blá, blá. E julgo que sim, que realmente o personagem não saberia que os medicamentos estariam fora de prazo, ou não teria proferido semelhante dislate. Só mesmo um demente o faria. O que a mim me choca aqui é a forma. É a frase, é a palavra «pobres», referida assim. É a expressão «devia dá-los aos pobres», é a atitude e o universo mental que está por detrás dela. É chocante e revoltante. E não pude deixar de pensar que ela teve origem num governante do Partido Socialista, num governante que governa alegadamente em nome da chamada esquerda. Não quer dizer que fosse mais aceitável num de outro partido da chamada direita! Mas aqui, apesar de tudo – e admito o preconceito -, chocou-me mais! E dei comigo a pensar que esta frase poderia perfeitamente ter sido dita por outro governante, sem escândalo, há 40 anos. E se calhar, mesmo nessa altura, não seria dita assim...

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10 de maio de 2007

A roseta figura: reflexões alfacinhas

Helena Roseta chegou-se à frente e parece que vai ser candidata à Câmara Municipal de Lisboa (CML) como independente. Já foi, aliás, independente dentro de um partido político, o que é, de algum modo, um contra-senso nos seus termos, pelo que apenas recuperou o estatuto que já teve. Soubemos também que ela havia escrito, há uns meses, uma carta ao líder do PS sobre a situação da CML, porventura constituindo-se como alternativa. Como não teve resposta, saiu do partido, exactamente agora. Realmente conveniente! Imagino que não saísse se o PS respondesse positivamente às suas pretensões e que que saísse indignada se a resposta fosse negativa. Assim, saí apenas melindrada por não ter tido resposta. Como se vê, pois, na saída só muda o adjectivo. O melindrada ouvi-o da boca de Manuel Alegre que já saiu em defesa dela. Favor com favor se paga! Deixando tudo isto de lado, confesso que racionalmente aceito este chegar-se à frente para o desempenho de cargos públicos. Quem quer, deve dizer que quer e ir à luta. Porém, talvez por educação – admito que errada – repugna-me este comportamento. Neste momento – admito ainda que não é a razão que fala – sinto nojo por ele. Naturalmente que as manobras de diversão: carta e etc. também ajudam, e muito, a compor o ramalhete. Mas, a meus olhos, pelo menos para uma coisa tudo isto serviu: foi para excluir liminarmente das minhas opções a roseta figura.

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